Por André Garcia
A Terra é formada por 70% de água, mas apenas 0,5% desse total está disponível para consumo humano e uso agrícola. Esse recurso limitado se torna ainda mais escasso diante do aumento da demanda e do avanço das mudanças climáticas, que deixam o planeta mais quente e seco. Em termos econômicos, o valor dos ecossistemas de água doce foi estimado em 58 trilhões de dólares em 2023.
O número, da WWF, equivale a 60% do PIB global e reforça o alerta do economista Quentin Grafton, chefe do departamento de economia da água da Unesco e professor na Universidade Nacional da Austrália. À publicação alemã Deutsche Welle, ele apontou que nesse cenário, haverá menos dinheiro para importações cruciais de alimentos, ou mesmo para aplacar a falta d’água com a construção de represas e plantas de dessalinização.
“Esse é um momento decisivo. Teremos que nos adaptar de uma forma muito mais rápida”, disse ele
As perdas econômicas já estão em curso. Países áridos da África e do Oriente Médio podem ver retração de até 25% de suas economias nas próximas décadas. A Índia, que concentra 18% da população mundial e apenas 4% da água doce, enfrenta limites de crescimento. Na Europa, secas recordes se espalham, enquanto agricultores e empresas de tecnologia disputam os mesmos recursos hídricos. Nos Estados Unidos, famílias sem acesso suficiente a água e saneamento gastam mais com saúde e perdem renda.
Irrigação expõe limites
No Brasil, os prejuízos causados por eventos climáticos extremos, como estiagens prolongadas e ondas de calor, impulsionaram a expansão da agricultura irrigada. O País já soma 2,2 milhões de hectares irrigados por pivôs centrais, crescimento de 14% em relação a 2022, segundo levantamento da Embrapa.
A irrigação pode trazer ganhos imediatos, incluindo a redução da pressão por novas áreas de cultivo. Mas os riscos se acumulam. A sobrecarga dos aquíferos, os custos de bombeamento, a tendência de salinização e a diminuição das vazões superficiais já aparecem como sinais de alerta. No Matopiba, entre 30% e 40% da demanda por irrigação pode não ser atendida de 2025 a 2040, com aumento de até 40% nos gastos de energia.
O quadro se agrava com a seca mais intensa e duradoura da história recente, que atinge 59% do território nacional. O Cerrado, que concentra mais de 70% dos equipamentos de irrigação, foi um dos biomas mais afetados. As queimadas destruíram 9,6 milhões de hectares de vegetação, reduzindo a evapotranspiração e a infiltração da água no solo, fatores essenciais para manter o ciclo das chuvas.
Rios e aquíferos em desequilíbrio
A pressão crescente sobre os recursos hídricos já compromete o equilíbrio entre águas superficiais e subterrâneas. Estudo publicado na revista Nature Communications, que analisou 18 mil poços em todo o país, constatou que em mais da metade deles o nível da água está abaixo do nível dos rios próximos. Isso significa que os rios estão perdendo água para o subsolo, o que pode reduzir o fluxo superficial e afetar o abastecimento de cidades, a agricultura e o meio ambiente.
O Brasil tem cerca de 2,5 milhões de poços, sendo 88% ilegais. Esse uso descontrolado ameaça regiões estratégicas. No Cerrado, a expansão agrícola pressiona aquíferos e rios. Na bacia do São Francisco, 61% dos rios podem perder água para o subsolo; no afluente Rio Verde Grande, esse índice chega a 74%.
Os pesquisadores alertam que, mesmo com 15% da água doce renovável do planeta, o Brasil já enfrenta sérios problemas hídricos. E o risco tende a crescer: a área irrigada no país pode aumentar mais de 50% nos próximos 20 anos. Sem planejamento e controle, a pressão sobre aquíferos e rios pode comprometer a segurança hídrica, alimentar e energética em grande escala.
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