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Pecuária consome 30% mais água que 5 estados somados

Pecuária consome 30% mais água que 5 estados somadosCrise é alimentada por mudanças climáticas e seca. Foto: Liga Do Araguaia/Divulgação

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Por André Garcia

A pecuária brasileira consome um volume de água 30% maior do que as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e do Distrito Federal somados. Enquanto o sustento do rebanho demanda de 10,1 bilhões a 10,4 bilhões de metros cúbicos (m³) por ano, uma população urbana de mais de 85 milhões de pessoas utiliza 7,8 bilhões de m³.

Os dados são da iniciativa Trase e expõem a pressão sobre bacias hidrográficas tanto pela cadeia da carne quanto pela da soja, que depende de 188 bilhões a 206 bilhões de m³ de água por ano. Em um contexto de secas mais frequentes, mudança climática e expansão produtiva, o alerta é para o risco de maior disputa por recursos hídricos.

Considerando que o Brasil é o maior exportador de carne e de soja do mundo, os pesquisadores também chamam a atenção para possíveis impactos sobre as exportações e sobre o próprio consumo interno.

“O uso da água associado a qualquer país, como a União Europeia, pode afetar as cadeias de abastecimento de outros, como a China, com efeitos sobre as economias e também sobre o abastecimento doméstico brasileiro.”

Água verde: a chuva que sustenta soja e pastagens

A base hídrica da produção brasileira de soja e carne bovina é, em grande parte, a chamada água verde, ou seja, a água da chuva incorporada aos sistemas de sequeiro. Entre 2015 e 2017, mais de 99% de toda a água consumida nesses setores veio da chuva, que sustentou lavouras e pastagens.

Essa dependência torna a cadeia altamente sensível à variabilidade climática. Mudanças no regime de chuvas podem afetar diretamente os rendimentos agrícolas e a capacidade produtiva das áreas de pasto, especialmente em regiões onde o uso de água por tonelada produzida é mais elevado.

De acordo com o relatório, o consumo de água na soja foi particularmente alto na interseção das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, acima de 2.000 m³ por tonelada, com destaque para o Matopiba. Já na pecuária, a pegada de água verde ultrapassou 10.000 m³ por tonelada de peso vivo.

Água azul: rios, aquíferos e reservatórios sob pressão

Embora a maior parte da produção dependa da chuva, a pressão mais direta sobre rios e aquíferos ocorre por meio da água azul, aquela retirada de fontes superficiais e subterrâneas. No período analisado, a irrigação da soja consumiu entre 0,96 e 1,70 km³ por ano, enquanto a cadeia da carne bovina demandou de 10,1 a 10,4 km³ anuais, principalmente pelo consumo do gado e pela evaporação de reservatórios rurais.

Os autores ressaltam que cerca de 70% de toda a água azul associada à pecuária veio justamente da evaporação desses reservatórios, estimada em 7,3 a 7,6 km³ por ano. O trabalho alerta que omitir esse componente leva a uma subestimação significativa da pegada hídrica real do setor.

Além disso, o artigo aponta que o uso de água azul evidencia regiões mais suscetíveis a conflitos pelo uso da água. Isso porque a retirada de águas superficiais e subterrâneas para agricultura compete com demandas domésticas e industriais a jusante, além de necessidades energéticas e dos ecossistemas.

Irrigação e reservatórios avançam em bacias já pressionadas

O estudo também destaca o avanço das estruturas de adaptação à seca. Entre 2015 e 2017, a área irrigada de soja cresceu de 0,81 para 0,95 milhão de hectares, concentrada em estados como Minas Gerais, Goiás, Bahia e São Paulo. No mesmo período, a área de reservatórios rurais aumentou de 0,49 para 0,51 milhão de hectares.

Embora seja uma estratégia de adaptação a secas mais longas e possa aumentar a intensidade produtiva, os autores destacam que grande parte das áreas agrícolas brasileiras já está localizada em bacias com escassez hídrica.

“Esses reservatórios são frequentemente construídos por meio do barramento de pequenos cursos d’água sem licença, com efeitos sobre a disponibilidade de água a jusante, a temperatura dos riachos e a qualidade da água”, pontuam.

 

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