Uma nova tecnologia desenvolvida por cientistas brasileiros promete ser um divisor de águas no combate à ferrugem asiática, o maior pesadelo dos produtores de soja. Através de uma plataforma em nuvem que utiliza Inteligência Artificial (IA), os agricultores agora podem diagnosticar a doença com precisão máxima, recebendo relatórios detalhados e recomendações de manejo direto no computador ou celular.
A ferramenta é fruto de uma parceria entre a Embrapa Instrumentação e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com financiamento da Fapesp. O estudo, liderado pelo cientista da computação Ricardo Alexandre Neves e orientado pelo pesquisador Paulo Cruvinel, foi detalhado na revista científica AgriEngineering.
A soja é o pilar da economia agrícola brasileira, com uma safra estimada em 177,6 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26. No entanto, a ferrugem asiática — um fungo espalhado pelo vento — pode destruir até 80% de uma plantação. Além da quebra de safra, o custo para tentar controlar o fungo passa dos 2 bilhões de dólares por colheita.
O problema é que o fungo está ficando resistente aos venenos atuais.
“Para livrar uma plantação da ferrugem asiática, podem ser necessárias aplicações excessivas. Isso causa danos ao meio ambiente e aos agricultores, pois impacta os custos de produção”, alerta Paulo Cruvinel.
Como a tecnologia funciona
Diferente de métodos que olham apenas para um fator, a nova plataforma cruza três tipos de informações:
- Clima: Sensores monitoram temperatura e umidade (o fungo adora calor entre 15°C e 28°C e muita umidade).
- Imagens: Fotos digitais das folhas são analisadas pela IA para identificar manchas amarelas, avermelhadas ou marrons.
- Dados Agronômicos: Informações sobre o tipo de semente e a época do plantio.
“A tecnologia classifica a favorabilidade da doença em três níveis — baixo, médio e alto — dependendo da combinação de variáveis relacionadas ao estágio da infestação. Isso permite diagnósticos e prognósticos para o controle da doença com maior eficácia e precisão”, explica Ricardo Neves.
Durante os testes, o sistema atingiu 100% de precisão ao prever o risco da doença, superando métodos tradicionais de análise.
Decisão na palma da mão
Na plataforma, o agricultor acessa um painel online de uso simples. Lá, ele encontra o histórico da fazenda e a aba “Recomendações Agrícolas”. O sistema não apenas avisa se há risco, mas sugere o que fazer e até indica quais produtos estão registrados no Ministério da Agricultura para aquele problema.
A grande vantagem é o uso racional de recursos. Ao saber o momento exato de agir, o produtor evita gastar dinheiro com aplicações desnecessárias de fungicida e protege o meio ambiente.
“O ponto-chave da pesquisa foi criar um método que integre dados diferentes para fornecer um diagnóstico mais confiável. Basear-se apenas em imagens ou dados climáticos isolados não é suficiente”, afirma Neves.
Especialistas da Embrapa Ambiente que validaram o sistema destacam que a ferramenta permite que o produtor tome providências antes que a doença se torne incontrolável, garantindo a saúde da lavoura e a rentabilidade do negócio.

