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Plano Safra : proposta prevê juro menor para quem recuperar pasto

Plano Safra : proposta prevê juro menor para quem recuperar pastoIdeia é equilibrar a forma como o crédito rural é utilizado. Foto: Agência Brasil

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Por André Garcia

Na safra 2024/2025, cerca de R$ 71 bilhões em crédito rural foram direcionados à transição da agropecuária brasileira para sistemas mais produtivos e resilientes ao clima. O volume vem crescendo nos últimos ciclos e indica como critérios socioambientais devem pautar o financiamento dos empreendimentos rurais daqui para frente.

Diante desse movimento a consultoria Agroícone apresentou ao Ministério da Agricultura (MAPA) um conjunto de propostas para o Plano Safra 2026/2027. O documento reúne sete notas técnicas com estratégias como a redução de juros e a ampliação de crédito para melhorar a resposta do setor aos riscos climáticos.

A começar pela qualidade do pasto. A ideia é simples: se a fazenda possui pastagens degradadas, o crédito para aquisição de animais deveria vir acompanhado de investimentos na recuperação dessas áreas, aumentando a produtividade por hectare e reduzindo a pressão pela abertura de novas áreas.

“O objetivo não é apenas ampliar o acesso ao crédito, mas elevar a eficiência do gasto público, direcionando recursos escassos para investimentos que gerem mais produção no mesmo espaço, reduzam a pressão por abertura de novas áreas e reforcem a competitividade da pecuária brasileira”, dizem os autores.

Crédito concentrado

Na primeira nota técnica, os autores destacam um forte desequilíbrio na forma como o crédito rural é utilizado na pecuária brasileira. Na safra 2024/2025, médios e grandes produtores contrataram cerca de R$ 246 bilhões em crédito rural. Desse total, R$ 82,5 bilhões foram destinados à pecuária.

A maior parte desses recursos, porém, foi utilizada para ampliar o rebanho. Enquanto 75% do crédito pecuário financiou a compra de bovinos, apenas 7,3% garantiram intervenções que podem aumentar a resiliência e a produtividade, como recuperação de pastagens, melhoria genética ou manejo mais intensivo.

O tamanho do problema das pastagens degradadas

O Brasil reúne 56 milhões de hectares de pastagens com algum grau de degradação em 332 mil propriedades com mais de quatro módulos fiscais. Mas hoje, 67% desses imóveis não possuem histórico recente de contratação de crédito rural, o que indica um grande contingente de produtores fora das políticas de financiamento.

Proposta prevê R$ 10 bilhões para recuperação de pastagens

Para enfrentar esse cenário, a nota técnica sugere direcionar R$ 10 bilhões do Plano Safra 2026/2027 para o programa RenovAgro, voltado à recuperação ou conversão de pastagens degradadas. A proposta prevê que esses recursos sejam operados por bancos públicos, privados e cooperativas de crédito.

“No caso dos médios e grandes produtores, ainda que o RenovAgro Recuperação e Conversão conte hoje com taxas de juros mais atrativas do que as demais linhas deste programa, é notório o impacto do cenário macroeconômico e das elevadas taxas de juros na contratação de crédito por este segmento”, diz trecho da nota.

Crédito para compra de gado poderia exigir verificação da pastagem

Outra mudança sugerida é que financiamentos destinados à compra de bovinos exijam a comprovação da qualidade das pastagens onde os animais serão introduzidos. Essa verificação poderia ser feita por meio de imagens de satélite, laudos técnicos, ou do Atlas das Pastagens, plataforma desenvolvida pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

Caso seja identificado algum grau de degradação, o crédito poderia ser condicionado à contratação simultânea de financiamento para recuperação das pastagens.

Juros menores para quem recuperar pastagens

O estudo também sugere um sistema de incentivos econômicos para estimular a intensificação. Produtores que recuperarem pastagens degradadas ou adotarem sistemas mais eficientes poderiam ter redução de até 0,5 ponto percentual nas taxas de juros do crédito rural.

Por outro lado, propriedades com grande proporção de pastagens degradadas poderiam enfrentar juros maiores em financiamentos voltados à pecuária, caso não realizem investimentos na recuperação das áreas.

“Os incentivos deveriam ser postos de tal modo que o produtor rural promova um melhoramento das suas explorações já existentes e intensifique o processo de transição produtiva sustentável”, concluem os autores.

 

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