HomeEconomia

Fertilizantes importados corroem margem da soja

Fertilizantes importados corroem margem da sojaDependência de insumos importados chega a 90%. Foto: Repdroução/MAPA

VBP Agropecuária de 2022 deve recuar em relação a 2021 em função da seca
Agro se articula com foco na COP30 e no seguro rural
Venda da Eletrobras pode impactar subsídios de energia para o agro

Por André Garcia

O Brasil é o maior produtor de soja do mundo, mas depende do exterior para abastecer mais de 90% dos fertilizantes e da matéria-prima para agrotóxicos usados nas lavouras. Isso significa que qualquer instabilidade geopolítica, variação cambial ou crise logística se transforma rapidamente em pressão sobre o custo de produção.

A escalada do conflito no Oriente Médio, que levou a ureia — principal fertilizante nitrogenado usado no Brasil — a saltar de US$ 480 para a faixa de US$ 500 a US$ 550 por tonelada em março, é o exemplo mais recente.

“Temos uma dependência permanente e progressiva dessas importações. As guerras e disputas geopolíticas sempre impactam os preços dos insumos, dos fretes e a cotação do dólar. E isso reflete muito no custo de produção”, explica Reginaldo Minaré, diretor-executivo da Associação Brasileira de Bioinsumos (ABBINS), em entrevista ao Gigante 163.

O resultado é um setor agrícola altamente exposto a fatores que o produtor não controla. É nesse cenário que os bioinsumos ganham força. Ao garantirem economia e autonomia ao setor, eles têm potencial de diminuir essa dependência pela metade nos próximos anos, segundo Minaré.

“Temos várias configurações com o uso dos bioinsumos. Em alguns casos, substituindo os químicos, em outros casos, auxiliando a redução desses químicos. Pensar em reduzir em até 50% a dependência da importação de insumos agrícolas até 2050 é uma meta factível”, afirmou em entrevista ao Gigante 163.

Contas no limite

Os fertilizantes respondem por quase 40% das despesas variáveis na produção de soja, segundo a Associação dos Produtores de Milho e Soja do Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), e seu preço tem pressionado os custos de forma consistente. No estado, o MAP subiu 43%, a ureia 25% e o cloreto de potássio 22,6% entre 2024 e 2025, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Em Mato Grosso, maior estado produtor de soja do país, o custo total da oleaginosa chegou a R$ 7.657,89 por hectare na safra 2025/26, alta de 7,69% sobre a safra anterior, puxada principalmente pela elevação de 9,23% nos gastos com fertilizantes, segundo o IMEA.

O quadro é agravado por uma tendência de longo prazo. Nas últimas três décadas, o uso de agrotóxicos na soja cresceu mais de 2.000% e a eficiência por quilo aplicado caiu 70%, segundo estudo do Instituto Escolhas. Quem antes precisava vender 11 sacas de soja para cobrir os custos com sementes, agrotóxicos e fertilizantes, agora precisa vender 23.

Estratégia avança no país

Não à toa, a estratégia vem ganhando espaço em culturas de grande escala como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, além de fruticultura, hortaliças e florestas plantadas. “O uso já está bastante consolidado. Tanto os microrganismos, que são as bactérias e os fungos, quanto de macro-organismos, como vespas e joaninhas”, diz Minaré.

Conforme levantamento da CropLife Brasil, em 2025 a área tratada com bioinsumos no Brasil chegou a 194 milhões de hectares, alta de 28% em relação ao ano anterior, movimentando R$ 6,2 bilhões. No Centro-Oeste, região que concentra 45% dessa área, Mato Grosso lidera com 47 milhões de hectares tratados.

Desafios para o setor

Contudo, a proposta ainda enfrenta resistências. Segundo Minaré, entre 2021 e 2023 grandes indústrias de agrotóxicos promoveram uma campanha contra a produção de bioinsumos nas propriedades, chegando a denunciar agricultores ao Ministério Público de diversos estados sob a alegação de que a prática era ilegal.

“Era uma mentira, uma falácia. Tanto era uma inverdade que não tiveram êxito. Mas atrapalhou bastante e criou insegurança jurídica no campo”, afirma ele.

O desafio passa também pela formação acadêmica, já que, segundo o diretor executivo, as universidades ainda dedicam muito mais horas-aula aos insumos químicos. “Isso reflete na orientação dos agricultores e também em instituições como a Embrapa, que absorve essa mão de obra. Mas isso já está sendo superado”, diz.

Legislação abre caminho para a virada

A boa notícia é que o cenário vem mudando e a regulação está avançando. A Lei dos Bioinsumos (Lei 15.070/2024), sancionada no fim de 2024, estabeleceu as regras para produção, registro e comercialização do setor. A regulamentação, esperada para este ano, deve ampliar a segurança jurídica para produtores, empresas e investidores.

“Com a regulamentação, que esperamos ser concluída até junho, teremos um cenário muito positivo e certamente as próximas décadas serão de adoção em larga escala dos bioinsumos na agropecuária brasileira”, conclui Minaré.

 

LEIA MAIS:

Guerra no Oriente Médio reforça urgência por bioinsumos no Brasil

Veja como bioinsumos podem livrar agro de fertilizantes importados

Registro de bioinsumos bate recorde em 2025 no Brasil

Brasil vira prioridade de gigante global dos bioinsumos

Agricultura 5.0 e bioinsumos impulsionam a sustentabilidade

Brasil marca posição em mercado global de bioinsumos

Veja como o conflito entre Irã e EUA impacta o agro brasileiro

Corrida por fertilizantes pode encarecer insumos, alerta Aprosoja