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Veja como proteger a safra do El Niño no Cerrado

Veja como proteger a safra do El Niño no CerradoFoto: Instituto BioSistêmico

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Resumo

  • Dados recentes de junho de 2026 indicam ocorrência de um El Niño forte, que trazem riscos de chuvas irregulares e veranicos para o Cerrado.
  • O fenômeno pode causar atrasos no início das chuvas (atrasando o plantio da soja), veranicos na fase crítica de floração e um efeito cascata que compromete a janela da segunda safra (milho, sorgo e algodão).
  • Simulações com dados de 50 anos mostram que lavouras em plantio direto – mantendo palhada na superfície – mantêm produtividade mais alta em anos de El Niño, protegendo o solo e a umidade.
  • O pesquisador Fernando Macena recomenda reforçar o plantio direto, escalonar a semeadura com diferentes ciclos de cultivares, intensificar o monitoramento de pragas e utilizar ferramentas de proteção financeira e seguro agrícola.
  • Diante da volatilidade climática, a orientação é seguir rigorosamente o Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático), aguardar a estabilização real das chuvas e checar a temperatura do solo antes de semear.

 

Vem aí um super El Niño. Para quem planta no Cerrado, isso significa risco real de chuva irregular, veranicos e quebra de produtividade — mas também significa que dá para se preparar com antecedência.

O El Niño é um fenômeno natural que esquenta as águas do Pacífico e mexe com o regime de chuvas no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Segundo o pesquisador Fernando Macena, da Embrapa Cerrados, os dados mais recentes mostram um aquecimento expressivo do oceano: o indicador que mede esse aquecimento chegou a +1,4°C em junho de 2026, o segundo mês seguido acima do patamar que caracteriza o fenômeno. Há projeções que apontam para uma intensidade histórica.

Na prática, isso pode se traduzir em três problemas para quem produz no Cerrado: atraso ou irregularidade no início das chuvas, o que empurra a data ideal de plantio da soja; veranicos prolongados durante a fase de floração e enchimento de grãos, justamente quando a planta mais precisa de água; e efeito cascata na segunda safra, já que o atraso na soja aperta a janela para plantar milho, sorgo ou algodão safrinha depois.

“Esses riscos climáticos se traduzem em dados concretos de perda de produtividade e do capital investido pelo produtor”, diz Macena.

O que a pesquisa mostra

Um estudo recente, ainda não publicado, simulou 50 anos de dados climáticos (1975 a 2024) em quatro praças do Cerrado — Cuiabá (MT), Rio Verde (GO), Planaltina (DF) e Barreiras (BA) — para entender como a soja se comporta em anos de El Niño. O resultado: quebras de produtividade mais severas quando a semeadura acontece cedo, em setembro ou outubro, período de chuva mais instável, e quando o solo é preparado no sistema convencional (com aração e gradagem).

Já nas lavouras em plantio direto — sem revolver o solo, mantendo a palhada na superfície — a produtividade se manteve mais alta em todos os cenários testados, mesmo nos anos de El Niño mais forte.

 “A sustentabilidade e a rentabilidade dependem da capacidade de resposta técnica e planejada. Assim, diante da volatilidade climática global e da confirmação de um fenômeno de grande intensidade, o Zarc pode mitigar incertezas na principal fronteira agrícola do País”, afirma Macena

Quatro frentes para reduzir o risco

Com base nesses dados, Macena recomenda que produtores e gestores organizem o planejamento da safra em quatro pontos:

  • Reforçar o plantio direto: A palhada na superfície protege o solo do impacto direto da chuva, aumenta a infiltração de água, reduz a evaporação e ajuda a regular a temperatura — tudo isso deixa a lavoura mais resistente a veranicos.
  • Escalonar a semeadura: Em vez de plantar tudo na mesma data, combinar cultivares de ciclo precoce, médio e tardio, respeitando a janela do Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático), ajuda a diluir o risco de estresse hídrico na lavoura toda de uma vez.
  • Monitorar pragas com mais frequência: Calor e período seco favorecem o aumento de insetos-praga no Cerrado, então vistorias mais frequentes na lavoura ajudam a agir antes do problema se espalhar.
  • Proteger o resultado financeiro: Além de seguir o Zarc, Macena recomenda combinar isso com ferramentas de proteção de preço e contratação de seguro agrícola.

E na hora de decidir quando plantar?

O Zarc indica, com base em séries históricas, o período de menor risco climático para cada cultura em cada município. Mas em ano de El Niño forte, Macena recomenda cautela extra: esperar a estação chuvosa se estabilizar de fato, acompanhar os boletins meteorológicos da região e checar a temperatura do solo antes de começar o plantio.

“A convergência entre a ciência do clima, as práticas conservacionistas como o plantio direto e a tecnologia de gestão agrícola é a única via para garantir a estabilidade do agronegócio no Cerrado”, resume o pesquisador.