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Aquecimento de 4 °C e corrida por água acendem alerta no Cerrado

Aquecimento de 4 °C e corrida por água acendem alerta no CerradoCenário pressiona margens de lucro do agronegócio. Foto: Adriano Gambarini/WWF Brasil

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 Por André Garcia

Com alta de até 4 °C nas últimas décadas, o Cerrado vê a fronteira agrícola do país avançar sobre áreas nativas, pressionando o uso da terra e os recursos naturais, incluindo a demanda por água, que no Brasil deve crescer oito vezes até 2040. É o que apontam os dados inéditos do relatório GEO Brasil 2025, lançado nesta terça-feira, (18), durante a COP30, em Belém (PA).

O relatório, elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta para um cenário de elevação de custos e ampliação do riscos produtivos, o que exige práticas mais eficientes para garantir estabilidade no campo.

 “O documento mostra, onde estamos e quais caminhos precisamos seguir para integrar desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Essa visão é essencial para que o Brasil cumpra suas metas climáticas e aproveite seu enorme potencial de liderar a transição para uma economia mais sustentável”, destacou o pesquisador da FGV,  José Antônio Puppimo

Riscos produtivos

O avanço da agropecuária sobre ecossistemas nativos segue como uma das tendências mais marcantes do país, elevando a área ocupada de 187,3 para 282,5 milhões de hectares entre 1985 e 2022.  No mesmo período, a comercialização de agrotóxicos cresceu 108%, sinalizando maior dependência de insumos em sistemas produtivos expostos a estresse climático crescente.

Outro ponto de alerta é que mesmo com a liderança brasileira em energia renovável, o relatório indica que o setor energético se tornou mais carbono-dependente, passando de 11,3% para 18,3% das emissões nacionais entre 2002 e 2023. Para o agro, esse cenário reforça o desafio de produzir em um ambiente cada vez mais vulnerável às alterações climáticas e com maior competição por insumos e infraestrutura.

Baixa capacidade de gestão ambiental

O GEO Brasil 2025 também destaca que parte dos gargalos ambientais do país tem origem na falta de estrutura institucional. Entre 2001 e 2022, os gastos federais com meio ambiente representaram apenas 0,26% do orçamento, enquanto cerca de 30% dos municípios ainda não possuem infraestrutura básica para gestão ambiental.

A combinação entre baixa capacidade de fiscalização, serviços ambientais frágeis e suporte técnico insuficiente resulta em maior exposição a riscos — especialmente em biomas sensíveis como o Cerrado e o Pantanal, que registraram aumentos históricos de temperatura de até 4 °C e 3 °C, respectivamente.

A precariedade da infraestrutura ambiental se reflete também em indicadores urbanos: apenas 52,2% do esgoto gerado no país é tratado, índice que cai para menos de 20% na região Norte. Para setores produtivos, que dependem de água de boa qualidade e estabilidade climática, esses sinais reforçam a necessidade de maior integração entre políticas ambientais e estratégias de desenvolvimento rural.

Pressão sobre a água

Um dos dados mais sensíveis, apresentados pelo relatório, diz respeito ao uso da água. A demanda nacional deve saltar de 188,7 m³/s em 1970 para 1.553,5 m³/s em 2040 — um aumento de oito vezes. No Cerrado, onde nascem algumas das principais bacias hidrográficas do país, o avanço da fronteira agrícola, somado ao aquecimento acelerado, cria um ambiente de maior competição entre consumo urbano, industrial e agropecuário.

“São dados como esses – e vários outros – que revelam a importância deste relatório para o Brasil e ressaltam a urgência de fortalecer a gestão integrada dos nossos recursos naturais”, afirma a representante interina do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no Brasil, Beatriz Martins Carneiro.

 

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