Por André Garcia
A ilegalidade ainda representa um quarto da atividade madeireira em Mato Grosso. Dos 190 mil hectares explorados entre agosto de 2023 e julho de 2024, 26% não tinham autorização, segundo a rede Simex. Os dados indicam que a prática avança principalmente sobre áreas protegidas, com alta de 85% no período.
Para o coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do Instituto Centro de Vida (ICV), Vinicius Silgueiro, o cenário indica a falta de comando e controle efetivo e representa uma ameaça direta aos compromissos ambientais e sociais do estado.
“Essa ilegalidade enfraquece todo o sistema de controle ambiental e a própria economia legal, porque cria uma concorrência desleal que desvaloriza e prejudica o setor de base florestal e as empresas que investem em boas práticas, agregação de valor e certificações de sua produção”, explica.
De acordo com a rede Simex, formada por ICV, Imazon e Imaflora, o estado também abriga 6 dos dez municípios brasileiros com mais exploração ilegal, sendo Aripuanã o primeiro do ranking, com 12,7 mil ha. Em seguida, aparecem Colniza (3º), Nova Ubiratã (4º), Paranatinga (6º), Marcelândia (7º) e Juína (9º).

Crédito: ICV
Avanço sobre áreas protegidas
Em Mato Grosso, quase metade da exploração ilegal ocorreu em Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs), que perderam 17,8 mil e 4,6 mil hectares respectivamente.
Na Amazônia como um todo, a prática também avançou sobre essas áreas, com 33.454 hectares explorados ilegalmente.
Entre as Terras Indígenas, a TI Aripuanã (MT) é o principal foco, com 8.601 ha afetados. Já nas Unidades de Conservação, a Reserva Extrativista Guariba/Roosevelt (MT) é a mais impactada, com 1.830 ha. Para Júlia Niero, analista técnica do Imaflora, o fato chama atenção já que a UC não figurava entre as mais afetadas no levantamento anterior.
“O avanço em uma UC que não estava no topo da pressão mostra que a ilegalidade é dinâmica e pode ‘migrar’ rapidamente. Nenhuma área protegida está fora de risco quando há falhas de fiscalização e impunidade no entorno”, avalia.
Por outro lado, imóveis rurais privados costumavam ser responsáveis por mais da metade da exploração ilegal. Em 2024, contudo, a ilegalidade da exploração nessa categoria foi a menor da série histórica. Foram 22,8 mil hectares explorados nessa categoria, sendo mais da metade concentrada em 30 propriedades.
Cenário nacional
Em toda a Amazônia, foram extraídos 327,6 mil hectares de florestas nativas para fins madeireiros no bioma, o que representa uma redução de 10,5% em comparação com o total identificado no estudo anterior. Desse número, 69% (225,1 mil ha) foram explorados de forma legal, enquanto 31% (102,5 mil ha) ocorreram sem autorização.
Neste cenário, a pesquisadora Camila Damasceno, do Imazon, destaca que apesar da redução da extração ilegal ser positiva, a redução da extração legal acende um alerta, pois pode indicar um enfraquecimento da gestão florestal, o que gera um mercado desleal para quem segue as práticas do manejo florestal.
“Compreender esses movimentos é essencial para orientar políticas públicas que fortaleçam o manejo florestal sustentável e ampliem a proteção da floresta. Os números do Simex ajudam a identificar os pólos de maior pressão sobre a floresta e evidenciam onde é prioritário avançar na gestão, na fiscalização e no apoio à produção legal”, disse.

