Por André Garcia
Com margens mais apertadas e pouca margem territorial para expansão, o cuidado com o solo será fator decisivo para a liderança brasileira na produção de soja nos próximos anos. É nele que se constrói a possibilidade de produzir mais, gastar menos com defensivos e garantir rentabilidade sem avançar sobre novas áreas.
Esse caminho já vem sendo trilhado a partir da diversificação de culturas na entressafra, o uso de plantas de cobertura, o plantio direto e estímulo à atividade biológica do solo. Para alcançar hoje a produtividade média da década de 1970, por exemplo, o País precisa de menos da metade da área daquele período.
“Seria necessária uma área de produção em torno de 115 milhões de hectares. Na safra passada, a área nacional de soja foi de 47,6 milhões de ha. Ou seja, cerca de 67 milhões de hectares foram poupados para se obter a mesma produção”, destaca o analista Rogério Borges, da Embrapa Soja.
Intensificação que poupa terra
Para estados como Mato Grosso, principal produtor do País, o debate é estratégico e reforça um posicionamento adotado pela maioria dos produtores, que já entenderam que o avanço da produção ocorre por meio do uso eficiente do solo e da sustentabilidade e não da abertura de novas áreas.
Prova disso, é que, mesmo ocupando apenas 10,8% de todo o território brasileiro, a agricultura levou o País ao posto de maior exportador de soja do mundo.
“O produtor brasileiro tem se dedicado cada vez mais à preservação da saúde do solo, tanto do ponto de vista físico quanto biológico, entendendo que ele é o berço das raízes das plantas cultivadas e a base de toda a produção agrícola”, explicou o vice-presidente leste da Aprosoja-MT, Diego Dallasta.
Raízes e carbono no centro do sistema
A estratégia começa na entressafra, onde diversificação com braquiária e crotalária forma palhada e melhora a qualidade física, química e biológica do solo pelo aporte de carbono e nitrogênio, essenciais para a formação da matéria orgânica. É o que explica o pesquisador Marco Antonio Nogueira, da Embrapa Soja.
“Dessa forma, a soja é semeada em uma área que recebeu, na entressafra, culturas que ajudam a formar palhada e melhorar a qualidade física, química e biológica do solo pelo aporte de carbono e, no caso da crotalária, também de nitrogênio.”
Nesse contexto, as raízes tornam-se protagonistas. A diversificação amplia a ocupação do solo, melhora a porosidade e aumenta a infiltração e o armazenamento de água, enquanto parte do carbono incorporado permanece estabilizada como matéria orgânica, favorecendo o balanço do sistema.
Embora uma parte do carbono retorne naturalmente à atmosfera, Nogueira ressalta que os sistemas bem manejados conseguem reter uma maior fração desse carbono no solo. “É isso que, no longo prazo, contribui para reduzir as emissões líquidas e tornar o sistema de produção de soja mais sustentável”, afirma.
Plantio direto como base da conservação
Essas práticas se somam ao plantio direto, que preserva a estrutura da terra, reduz a erosão e favorece o aumento da matéria orgânica. “Esse cuidado se traduz na adoção de sistemas como o plantio direto, em que não há o revolvimento e não se utilizam mais grades niveladoras ou aradoras”, diz Dallasta.
Não à toa, a Aprosoja-MT vem ressaltando o papel do produtor rural no uso e na ocupação responsável do território e como agente da preservação ambiental.
“Para alcançar safras com alta produtividade, rentabilidade e sustentabilidade, é fundamental contar com um solo bem nutrido e com uma biodiversidade devidamente constituída”, conclui o produtor rural de Jaciara (MT) e diretor regional da entidade, Jorge Diego Giacomelli.
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