Por André Garcia
Em meio ao conflito no Oriente Médio e à alta nos preços de fertilizantes e defensivos agrícolas, os bioinsumos surgem como alternativa para reduzir a vulnerabilidade do agronegócio brasileiro às pressões externas. O setor está em expansão, mas ainda precisa de investimentos, infraestrutura e regulação para avançar.
Segundo o levantamento, o mercado global de bioinsumos movimenta atualmente entre US$ 13 bilhões e US$ 15 bilhões, com projeção de alcançar US$ 45 bilhões até 2032. No Brasil, o crescimento também é acelerado. O setor registra expansão média anual de 21% nos últimos anos, com um mercado estimado em cerca de R$ 5 bilhões.
Apesar dos números, um estudo recente do Cepea/Esalq-USP destaca que a taxa de adoção ainda é de apenas 26% da área agrícola, o equivalente a cerca de 156 milhões de hectares com uso potencial dessas tecnologias no País. Por isso, os autores defendem que o tema deve ser encarado como uma questão de política econômica,
“Os bioinsumos emergem, nesse contexto, não como substituto integral dos insumos sintéticos, mas como o vetor mais concreto de recomposição de soberania tecnológica na base produtiva”, afirmam os pesquisadores ao destacarem as implicações diretas sobre custos de produção, balança comercial, segurança alimentar e autonomia nacional.
Tecnologia para alimentar o planeta
O estudo “Bioinsumos na agricultura: tendências e desafios no Brasil”, elaborado por pesquisadores da Embrapa, também destaca a importância dessas tecnologias em um cenário de aumento na demanda mundial por alimentos. O estudo considera a projeção de que a população mundial ultrapasse 10 bilhões de pessoas até o final do século.
“A agricultura mundial será pressionada a expandir sua capacidade produtiva para atender às necessidades alimentares globais. Essa pressão recai, sobretudo, sobre países de grande potencial agrícola, como o Brasil, sendo que ajustes no processo de produção serão necessários”, avaliam.
Regulação abre caminho para expansão
No Brasil, o caminho legal para os bioinsumos começou a ser aberto com a promulgação da Lei nº 15.070/2024, conhecida como Lei dos Bioinsumos. A norma estabelece regras para produção, registro, comercialização no País, dando maior segurança jurídica para o desenvolvimento do setor.
“Com incentivos às instituições de pesquisa, startups, indústria e comércio, novos produtos tendem a chegar ao mercado nos próximos anos, atendendo à demanda do setor por alternativas eficientes e de baixo custo ambiental e econômico”, ressaltam os pesquisadores.
Por que é hora de escalar a produção
Além do fator geopolítico, o avanço dos bioinsumos também responde a mudanças estruturais na agricultura. Entre elas, estão a resistência crescente de pragas a moléculas sintéticas, o endurecimento regulatório sobre pesticidas químicos e a demanda de mercados consumidores por atributos de sustentabilidade verificáveis.
“No caso brasileiro, a essa equação somam-se particularidades que amplificam tanto a oportunidade quanto o desafio: o regime de duas a três safras anuais na mesma área eleva simultaneamente a pressão fitossanitária e a superfície potencial de adoção de estratégias biológicas”, avaliam.
Avanço rápido, mas ainda limitado
Os especialistas alertam que o crescimento acelerado do setor não significa necessariamente uma transformação estrutural do sistema produtivo. Parte da expansão reflete o fato de que o mercado partiu de uma base reduzida, próxima de R$ 1 bilhão há poucos anos, o que tende a inflar as taxas de crescimento percentual.
A boa notícia é que ainda assim, a manutenção de uma taxa média de expansão de 22% ao ano ao longo de três safras consecutivas indica que os bioinsumos começam a sair da fase de experimentação pontual para integrar de forma mais consistente os programas de manejo agrícola.
“A questão que permanece aberta é se a taxa de adoção continuará acelerando à medida que o mercado ganha escala, ou se encontrará os gargalos de formulação, registro e demonstração de eficácia que historicamente limitaram a transição dos biológicos da margem para o centro dos sistemas de produção.”
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