A escalada do conflito no Oriente Médio, após os ataques recentes envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, colocou o agronegócio brasileiro em estado de atenção.
Embora analistas considerem improvável uma quebra imediata nos embarques de grãos e carnes, a instabilidade na região — estratégica para o fluxo global de energia e transporte — já pressiona os custos de produção, a logística de exportação e os preços dos fertilizantes.
O setor agora monitora de perto as rotas marítimas, especialmente o Estreito de Ormuz, e prepara planos de contingência para garantir que os produtos brasileiros continuem chegando aos seus destinos finais.
Petróleo, Diesel e o custo da Logística
O Golfo Pérsico é uma artéria vital para o comércio global de energia. O risco de fechamento do Estreito de Ormuz e a alta do petróleo pressionam o preço do diesel, combustível essencial para o transporte de grãos e a operação de máquinas agrícolas no Brasil.
- Impacto: A elevação dos custos logísticos — tanto rodoviários quanto marítimos — reduz a competitividade do produtor, cujas margens já são apertadas.
- Seguros: O aumento do risco na região eleva os prêmios de seguro marítimo, encarecendo tanto a exportação de commodities quanto a importação de insumos.
O dilema dos Fertilizantes
O Irã é um player central na cadeia de fertilizantes nitrogenados. Mesmo que o Brasil não compre volumes massivos diretamente do país, a influência iraniana é estrutural:
- Dependência indireta: O Irã fornece gás natural para países como Catar, Omã e Nigéria — grandes exportadores de ureia para o Brasil. Uma interrupção no fluxo de gás pode reduzir a oferta global e elevar os preços.
- Dados de mercado: Em 2025, o Irã exportou 184,7 mil toneladas de ureia diretamente ao Brasil (US$ 66,8 milhões). A volatilidade do dólar, impulsionada pelo conflito, também atua como um fator extra de encarecimento para o produtor rural na próxima safra.
Comércio Exterior: Milho e Carnes
Apesar do cenário de incerteza, a leitura predominante é de que as correntes de comércio não serão quebradas, embora se tornem mais complexas.
- Milho: O Irã foi o maior destino do milho brasileiro em 2025, importando 9 milhões de toneladas (23% do total exportado). A expectativa é que o impacto seja limitado, pois o maior volume de embarques ocorre a partir de julho, quando se espera que o conflito já esteja equacionado.
- Carnes: O Oriente Médio é um mercado vital. Em 2025, os Emirados Árabes Unidos adquiriram 480 mil toneladas de carne de frango, enquanto o total de carne bovina enviada à região somou 223,9 mil toneladas.
- Posicionamento empresarial: Empresas como a BRF (que possui unidades na Arábia Saudita e Emirados) acionaram planos de contingência para garantir a segurança dos colaboradores e o fluxo de abastecimento. Associações como a ABPA e a Abiec monitoram a situação e estudam rotas alternativas caso necessário.
Visão de mercado: “Areia movediça”
Para analistas como Adriano Turco (Agroconsult), o cenário ainda é de “areia movediça”. Enquanto Luiz Carlos Pacheco (T&F Consultoria) destaca que a dependência mundial do petróleo torna o conflito “grande demais” para se estender por muito tempo, Vlamir Brandalizze, diretor da Brandalizze Consulting, reforça que o impacto será sentido principalmente na alta temporária dos custos de produção.
“O impacto dessa guerra se dá de duas maneiras. Primeiro, na área de fertilizantes, porque o Irã é um grande fornecedor de ureia para o mercado global e para o Brasil. E também existe um uma expectativa de valorização em dólar e isso impacta no custo”, disse ao Valor.
A balança comercial entre Brasil e Irã fechou 2025 em US$ 3 bilhões, com o milho representando quase 68% dessas vendas. Por ora, o setor mantém o monitoramento diário, apostando na resiliência da logística para que o produto brasileiro continue chegando aos seus destinos finais.

