Pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental descobriram uma nova espécie de fungo na Amazônia com um talento especial: ele funciona como um “guarda-costas” de plantações e ainda produz substâncias medicinais inéditas. Batizado de Trichoderma agriamazonicum, o fungo foi encontrado na casca de uma árvore nativa e tem potencial para virar produto nas prateleiras de insumos agrícolas e até em farmácias.
O que torna esse fungo diferente é a sua dupla funcionalidade. Na agricultura, ele combate doenças que atacam folhas de culturas como soja e frutas. Em laboratório, ele conseguiu segurar o avanço de nove tipos de fungos e pragas que causam prejuízos no campo.
A nova espécie se diferencia das demais por apresentar características genéticas próprias, que ampliam as possibilidades de uso em sistemas produtivos sustentáveis.
Thiago Fernandes Sousa, que identificou o fungo durante seu doutorado, explica como ele age:
“Os resultados mostram que ela é capaz de inibir o crescimento micelial de fitopatógenos, tanto por micoparasitismo quanto pela produção de compostos orgânicos voláteis (COVs), com destaque para a inibição de Corynespora cassiicola e Colletotrichum spp. (que atacam culturas como soja e frutas, por exemplo)”, explica.
Estimulante de crescimento
Além de proteger, o fungo também produz hormônios que ajudam as plantas a crescerem mais rápido. Em testes de laboratório, ele se mostrou um dos maiores produtores de um hormônio essencial para o desenvolvimento vegetal. Porém, nos testes reais com pimentão, as plantas não cresceram tanto quanto o esperado, o que mostra que a natureza é complexa e o fungo brilha mesmo é pela sua incrível capacidade de criar moléculas de defesa.
Curiosamente, esse fungo estava “escondido” em uma coleção da Embrapa desde 2004.
“No laboratório, estávamos realizando trabalhos de isolamento de microrganismos de diferentes habitats amazônicos. Esse Trichoderma foi isolado a partir da casca de cardeiro (Scleronema micranthum), uma espécie madeireira nativa. O isolado estava preservado em coleção de cultura desde 2004”, observa Sousa.
Para os cientistas, isso prova que a Amazônia guarda tesouros que ainda nem conhecemos.
“Com base na coleta desse único microrganismo, identificamos a possibilidade de gerar valor econômico a partir dessas moléculas e transformá-las em bioprodutos comerciais”, destaca Sousa.
Contra superbactérias e doenças humanas
A descoberta foi além das fazendas. Os cientistas descobriram que o fungo funciona como uma “fábrica química” natural, produzindo substâncias chamadas peptídeos que agem como antibióticos poderosos.
Em testes, essas substâncias criadas pelo fungo foram mais eficazes que antibióticos vendidos hoje em dia, combatendo inclusive bactérias perigosas que causam pneumonia (Klebsiella pneumoniae). O uso de inteligência artificial ajudou os pesquisadores a “prever” essas fórmulas químicas antes mesmo de isolá-las, acelerando a descoberta de novos remédios.
A importância de preservar o invisível
A história do Trichoderma agriamazonicum traz um alerta: a árvore de onde ele foi tirado poderia ter sido cortada e o fungo extinto antes de descobrirem sua utilidade. O pesquisador Gilvan Ferreira ressalta que manter “bibliotecas” de microrganismos vivos é estratégico para o Brasil:
“Esse potencial poderia ter sido perdido para sempre se não houvesse a coleção de culturas que mantém o isolado viável ao longo do tempo. Isso reforça a necessidade urgente de investimento contínuo na conservação, pesquisa e aplicação dos nossos recursos genéticos”, enfatiza.

