A multinacional norte-americana Indigo Ag começou a pagar agricultores no Brasil pela adoção de práticas sustentáveis como plantio direto, uso de biológicos e manejo mais racional de fertilizantes. A proposta é criar uma remuneração adicional para produtores de soja, milho e arroz que reduzam emissões dentro da própria cadeia agrícola.
Cerca de R$ 10 milhões já foram repassados a produtores do Brasil e da Argentina por meio do programa Source, que conecta agricultores a companhias do varejo e da indústria interessadas em reduzir suas emissões. Ao AgFeed, o responsável pela iniciativa na América Latina, Guilherme Raucci, destacou o avanço da demanda.
“Esse player busca a Indigo, porque eles já fizeram seus compromissos (de descarbonização) mas eles não têm capacidade de fazer esse processo de mensuração com qualidade tendo esse trabalho mais intensivo, de ponta a ponta, até porque os fornecedores variam. Esse trabalho é o que a Indigo faz”, explicou.
Na prática, os produtores recebem um prêmio estimado entre 2% e 5% sobre o valor de mercado da commodity, pago após a validação dos dados técnicos e ambientais do programa. A empresa não divulga quais multinacionais financiam os pagamentos, mas cita que, nos Estados Unidos, já trabalha com grandes redes como Walmart e AB Inbev.
Ponte entre o campo e o varejo global
O Source alcançou cerca de 16 mil hectares inscritos nas safras 2024/2025 e 2025/2026, com expectativa de dobrar a área e o número de participantes até o ciclo 2026/2027. Entre os produtores citados está o Grupo Teles, que atua em Goiás, Mato Grosso e Pará, com cerca de 48 mil hectares de soja.
O produtor pode participar mesmo sem comprar insumos da empresa, e o apoio ocorre principalmente por meio da assistência técnica das equipes de campo na adoção de práticas sustentáveis, como o plantio direto, o cultivo de plantas de cobertura, o uso mais racional de fertilizantes e a ampliação do uso de biológicos.
“O programa tem esse incentivo pelo volume (de grãos) que está sendo demandado. A gente desenha a estrutura para cada nível. Não é zero e um, não exclui ninguém do processo. Quem está começando tem uma chance, mas ainda é menor. E quem já consegue adotar mais, o valor é maior.”
Pagamento direto por redução de emissões
O modelo funciona como uma ponte com compradores globais que assumiram compromissos de descarbonização, mas não têm estrutura própria para medir e comprovar reduções em cadeias complexas. A Indigo atua justamente oferecendo ferramentas de mensuração e verificação, conhecidas no mercado como MRV.
A lógica é diferente da maioria dos programas de agricultura regenerativa no Brasil, que normalmente passam por tradings e acordos intermediários antes de chegar ao consumidor final. Neste caso, a demanda parte das empresas que estão na ponta, como grupos de alimentos e bebidas que buscam resultados rápidos.
“A empresa precisa fazer esse reporte climático, então o nosso programa está diretamente fazendo essa ponte”, afirmou Raucci.
Próximo passo: créditos de carbono
O avanço de programas como o Source indica uma mudança no mercado: práticas sustentáveis começam a deixar de ser apenas uma exigência ambiental e passam a gerar remuneração adicional e novas oportunidades comerciais para produtores que consigam comprovar redução de emissões na própria cadeia.
A Indigo avalia que, no caso dos créditos de carbono, sua atuação no Brasil deve ocorrer inicialmente como apoio técnico a projetos já existentes, oferecendo ferramentas de mensuração e credibilidade. Segundo a empresa, esse tipo de iniciativa ainda pode levar pelo menos cinco anos para se consolidar no país.
Quando isso ocorrer, o Indigo Carbon, programa já conhecido nos Estados Unidos, poderá chegar ao mercado brasileiro. A expectativa é viabilizar operações semelhantes à anunciada no início deste ano, quando a Microsoft adquiriu 2,85 milhões de créditos gerados pela Indigo.
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