HomeEcologia

Brasil perdeu 1,4 bi de toneladas de carbono do solo

Brasil perdeu 1,4 bi de toneladas de carbono do soloAdoção de práticas sustentáveis, como a ILPF, é a solução. Foto: Embrapa

Estudo com técnica fotônica apresenta dados inéditos sobre carbono no solo
Governo quer aprovação de mercado de carbono antes da COP28
Redução de emissões de gases do efeito estufa agora tem metodologia

A transformação de vegetação nativa em áreas de lavoura e pastagem nos seis biomas do Brasil gerou um “buraco” de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada superficial do solo (até 30 cm). Esse déficit equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ na atmosfera. Os dados constam em um estudo publicado na revista Nature Communications, desenvolvido por cientistas da USP (Esalq e CCarbon), Embrapa e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Esta é a primeira vez que pesquisadores conseguem calcular o estoque de carbono original do País, antes das intervenções humanas, e medir o tamanho da “dívida” acumulada pela mudança no uso da terra.

Para chegar a esses números, a equipe revisou mais de 370 estudos e analisou um banco de dados com 4.290 amostras de solo em todo o território nacional.

Manejo sustentável é o caminho

O estudo prova que a forma como se produz impacta diretamente a retenção de carbono. A conversão de mata nativa para monoculturas tradicionais causa uma perda média de 22% de matéria orgânica. No entanto, quando são adotados sistemas integrados (lavoura-pecuária), essa perda cai para 8,6%.

A técnica de plantio direto também se mostrou muito mais eficiente que o cultivo convencional: enquanto o método tradicional perde 21,4% de carbono, o plantio direto limita essa redução a 11,4% — uma diferença de quase 50% entre as duas práticas.

“O estudo não apenas quantificou o problema, mas também apontou oportunidades para aumentar a captação de carbono por meio de mudanças nas práticas agrícolas”, explica Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa.

Cerrado tem alto potencial de ‘recarbonização’

A pesquisa identifica que 72% da capacidade de recuperar esse carbono perdido está no Cerrado e na Mata Atlântica. Segundo os cientistas, se o Brasil conseguir recompor apenas um terço do potencial estimado, será capaz de cumprir suas metas climáticas globais (NDCs) até 2035.

Além do ganho ambiental, o estudo abre portas para o mercado financeiro. Ao quantificar a dívida de 1,4 bilhão de toneladas, a pesquisa ajuda a estimar o valor econômico que o país pode movimentar com créditos de carbono.

“Conhecendo a dimensão do ‘estoque’, é possível compreender seu valor em termos de recursos, o que poderia ser um incentivo para atrair investimentos na economia da descarbonização”, destaca Daniel Potma, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital.

Embora os dados venham de fontes diversas, o pesquisador João Marcos Villela (USP) afirma que o trabalho estabelece uma base de referência inédita para futuras políticas públicas.

“O trabalho fornece um parâmetro para ações futuras”, pontua.

Para a comunidade científica, a publicação em um periódico de prestígio internacional como a Nature fortalece a credibilidade do Brasil nas negociações climáticas globais, oferecendo dados nacionais robustos para apoiar as metas do Acordo de Paris.