Por André Garcia
Disputas tarifárias internacionais, a proximidade da EUDR, lei que proíbe a importação de produtos ligados ao desmatamento, e as possibilidades que se anunciam com o acordo Mercosul-União Europeia colocam a rastreabilidade no balcão de negócios e indicam que ela deve se tornar um forte ativo de valor para o agronegócio brasileiro.
Enquanto a estratégia ainda engatinha em setores como o da carne, onde apenas 2% do rebanho era rastreado em 2024, o algodão mostra como converter transparência em vantagem competitiva. Com mais de 80% da produção certificada no mesmo período, a cadeia da pluma começa agora a se posicionar na Europa.
Nesta semana, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) participa da Première Vision Paris, feira voltada a insumos e fornecedores da indústria da moda. O trabalho conta com a parceria da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e leva a mensagem “Brasil: from Farm to Fashion”, ou Brasil: da Fazenda à Moda.
Para o diretor-superintendente da Abit, Fernando Valente Pimentel, a aproximação entre produção agrícola e indústria é parte do esforço de internacionalização dos produtos brasileiros.
“Estamos prontos para apresentar o ‘Made in Brazil’ como sinônimo de qualidade diferenciada e alto valor agregado. Nossos produtos se destacam por oferecer atributos essenciais ao mercado global, como sustentabilidade, design inovador e tecnologia”, afirmou.
Base no campo
Criado pela Abrapa em 2012, o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) é a principal certificação socioambiental do setor. As fazendas participantes passam por auditorias e recebem o selo após comprovar o cumprimento de critérios ligados à proteção ambiental, às normas trabalhistas e à eficiência produtiva.
Muitas delas estão em Mato Grosso, que responde por cerca de 70% da área plantada com algodão no Brasil e por 10% da área mundial. São 137 algodoeiras distribuídas pelo estado, onde o crescimento sustentado por produtividade, e não pela abertura de novas áreas, reforça o posicionamento do algodão brasileiro no mercado internacional.
“Mesmo sem abrirmos novas áreas, podemos ampliar o cultivo de algodão devido à rotação de culturas. Basta que haja demanda para isso”, afirmou recentemente Orcival Gouveia Guimarães, presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa).
Rastreabildiade na vitrine
A participação do Sou de Algodão na PV Paris 2026 acontece em um momento-chave para o movimento. Em 2025, foi concluído o projeto piloto do SouABR, programa que entrega a rastreabilidade total de peças em algodão, garantindo a certificação socioambiental da origem da fibra.
Assim, por meio de um QR Code na etiqueta, é possível acompanhar toda a trajetória do algodão usado na peça. O sistema usa tecnologia blockchain, um registro digital seguro que documenta cada etapa da produção, do campo até as lojas.
“Levar o SouABR à Première Vision Paris é mostrar, na prática, que o algodão brasileiro tem história, origem e responsabilidade”, avalia a diretora de Relações Institucionais da Abrapa e gestora do movimento Sou de Algodão, Silmara Ferraresi,.
A iniciativa já tem adesão nacional. Marcas como Reserva, Renner, C&A e Calvin Klein estão entre as participantes do SouABR. Na fase piloto, 19 empresas somaram pouco mais de 640 mil peças rastreadas, com informações acessíveis ao consumidor final. Para 2026, a meta é alcançar um milhão de peças.
Novas frentes comerciais
Esse movimento ocorre em um cenário de demanda internacional ativa, no qual a confiança do consumidor pode ser determinante. O acordo entre Mercosul e União Europeia, por exemplo, prevê a eliminação gradual da tarifa de 8% cobrada sobre tecidos de algodão brasileiro na entrada do bloco, abrindo espaço para o Brasil.
Ao mesmo tempo, o país busca ampliar a presença na China, Vietnã e Paquistão. Em paralelo, entidades como Abrapa, ANEA e Cotton Brazil articulam uma coalizão internacional com exportadores dos Estados Unidos e da Austrália para aumentar a demanda por algodão diante do avanço das fibras sintéticas.
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