HomeEconomia

Como o algodão brasileiro usa a rastreabilidade para abrir mercados

Como o algodão brasileiro usa a rastreabilidade para abrir mercadosPeças rastreáveis apresentadas em Paris. Foto: Sou de Algodão

Produtor de pluma brasileira tem motivos para comemorar o Dia Mundial do Algodão
Tarifaço pressiona cadeia do algodão, que vê oportunidade na Ásia
Beneficiamento de algodão da safra 20/21 atinge 81% da produção, afirma Abrapa

Por André Garcia

Disputas tarifárias internacionais, a proximidade da EUDR, lei que proíbe a importação de produtos ligados ao desmatamento, e as possibilidades que se anunciam com o acordo Mercosul-União Europeia colocam a rastreabilidade no balcão de negócios e indicam que ela deve se tornar um forte ativo de valor para o agronegócio brasileiro.

Enquanto a estratégia ainda engatinha em setores como o da carne, onde apenas 2% do rebanho era rastreado em 2024, o algodão mostra como converter transparência em vantagem competitiva. Com mais de 80% da produção certificada no mesmo período, a cadeia da pluma começa agora a se posicionar na Europa.

Nesta semana, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) participa da Première Vision Paris, feira voltada a insumos e fornecedores da indústria da moda. O trabalho conta com a parceria da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e leva a mensagem “Brasil: from Farm to Fashion”, ou Brasil: da Fazenda à Moda.

Para o diretor-superintendente da Abit, Fernando Valente Pimentel, a aproximação entre produção agrícola e indústria é parte do esforço de internacionalização dos produtos brasileiros.

“Estamos prontos para apresentar o ‘Made in Brazil’ como sinônimo de qualidade diferenciada e alto valor agregado. Nossos produtos se destacam por oferecer atributos essenciais ao mercado global, como sustentabilidade, design inovador e tecnologia”, afirmou.

Base no campo

Criado pela Abrapa em 2012, o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) é a principal certificação socioambiental do setor. As fazendas participantes passam por auditorias e recebem o selo após comprovar o cumprimento de critérios ligados à proteção ambiental, às normas trabalhistas e à eficiência produtiva.

Muitas delas estão em Mato Grosso, que responde por cerca de 70% da área plantada com algodão no Brasil e por 10% da área mundial. São 137 algodoeiras distribuídas pelo estado, onde o crescimento sustentado por produtividade, e não pela abertura de novas áreas, reforça o posicionamento do algodão brasileiro no mercado internacional.

“Mesmo sem abrirmos novas áreas, podemos ampliar o cultivo de algodão devido à rotação de culturas. Basta que haja demanda para isso”, afirmou recentemente Orcival Gouveia Guimarães, presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa).

Rastreabildiade na vitrine

A participação do Sou de Algodão na PV Paris 2026 acontece em um momento-chave para o movimento. Em 2025, foi concluído o projeto piloto do SouABR, programa que entrega a rastreabilidade total de peças em algodão, garantindo a certificação socioambiental da origem da fibra.

Assim, por meio de um QR Code na etiqueta, é possível acompanhar toda a trajetória do algodão usado na peça. O sistema usa tecnologia blockchain, um registro digital seguro que documenta cada etapa da produção, do campo até as lojas.

“Levar o SouABR à Première Vision Paris é mostrar, na prática, que o algodão brasileiro tem história, origem e responsabilidade”,  avalia a diretora de Relações Institucionais da Abrapa e gestora do movimento Sou de Algodão, Silmara Ferraresi,.

A iniciativa já tem adesão nacional. Marcas como Reserva, Renner, C&A e Calvin Klein estão entre as participantes do SouABR. Na fase piloto, 19 empresas somaram pouco mais de 640 mil peças rastreadas, com informações acessíveis ao consumidor final. Para 2026, a meta é alcançar um milhão de peças.

Novas frentes comerciais

Esse movimento ocorre em um cenário de demanda internacional ativa, no qual a confiança do consumidor pode ser determinante. O acordo entre Mercosul e União Europeia, por exemplo, prevê a eliminação gradual da tarifa de 8% cobrada sobre tecidos de algodão brasileiro na entrada do bloco, abrindo espaço para o Brasil.

Ao mesmo tempo, o país busca ampliar a presença na China, Vietnã e Paquistão. Em paralelo, entidades como Abrapa, ANEA e Cotton Brazil articulam uma coalizão internacional com exportadores dos Estados Unidos e da Austrália para aumentar a demanda por algodão diante do avanço das fibras sintéticas.

 

LEIA MAIS:

Tarifaço pressiona cadeia do algodão, que vê oportunidade na Ásia

Pesquisa busca solução orgânica para praga de algodão

Mato Grosso lidera certificação de ‘algodão responsável’ no País

Ritmo lento do algodão em MT preocupa produtor

Algodão agroflorestal do MT mostra potência da moda sustentável

Brasil lidera exportação de algodão com tecnologia e sustentabilidade