Por André Garcia
A instabilidade climática registrada no início da safra, com períodos de seca seguidos por excesso de chuva, tem levado produtores de milho de Mato Grosso a plantar fora da janela considerada ideal. O cenário aumenta o risco de prejuízos e causa preocupação em diferentes regiões do estado.
Dados do Aproclima, ferramenta de monitoramento da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja-MT), indicam que municípios como Diamantino, Nova Mutum, Sinop e Querência acumularam entre 700 e 900 milímetros de chuva em apenas 60 dias, enquanto outras regiões registraram volumes entre 150 e 500 milímetros.
“No caso do milho, cultura mais sensível do que a soja, o excesso hídrico na germinação, no crescimento e na floração causa maiores danos do que a seca, danos na qualidade dos grãos e diminui consequentemente a viabilidade econômica do produto”, afirma a produtora Laura Battisti Nardes.
Solo encharcado dificulta manejo
Além de atrasar os trabalhos de campo, o excesso de chuva também dificulta operações importantes no manejo da lavoura, como a aplicação de fertilizantes nitrogenados. O nitrogênio é um dos principais nutrientes para o desenvolvimento do milho e tem impacto direto no potencial produtivo das plantas.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), nesta semana as chuvas devem se concentrar principalmente no centro-norte de Mato Grosso. Os acumulados podem chegar a cerca de 80 milímetros, com volumes pontuais superiores a 150 milímetros.
As temperaturas também permanecem elevadas, variando entre 30 °C e 34 °C. Combinado ao alto volume de precipitações, esse cenário intensifica a evapotranspiração e pressiona o balanço hídrico do solo, criando condições de maior instabilidade para o desenvolvimento das lavouras.
Plantio tardio amplia incertezas
Por outro lado, as áreas semeadas ao longo de março ficam mais vulneráveis a períodos de seca na fase final do ciclo, o que pode comprometer o enchimento de grãos e reduzir a produtividade ao fim da temporada. É justamente isso que preocupa Fábio Luis Bratz, que produz em Nova Ubiratã.
“A chuva atrasou a colheita da soja, choveu muito aqui na região e depois colhemos a soja, mas a nossa maior preocupação é a falta de chuva lá na frente, no final do ciclo. Pode ser que a chuva corte mais cedo e aí não dê tempo do milho expressar todo o seu potencial produtivo”, relatou.
Outro ponto de atenção é o aumento da pressão de pragas e doenças nas lavouras. Segundo especialistas, ciclos mais longos de cultivo e condições climáticas favoráveis podem ampliar a incidência de insetos e patógenos nas áreas agrícolas.
“Na verdade, estamos plantando atrasado, e o problema é que talvez não vamos conseguir produzir. A semente está aí, o adubo também, tem que plantar, não tem como fazer. Vamos ver depois se produzimos para pagar pelo menos essa conta aí”, lamentou Bratz.
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