Por André Garcia
No dia em que se celebra o Dia Mundial da Água, neste 22 de março, o campo brasileiro reforça que a preservação dos recursos hídricos deixou de ser apenas uma obrigação legal para se tornar uma estratégia de sobrevivência do negócio.
Mesmo sem acesso a programas de pagamento por serviços ambientais, produtores rurais do Centro-Oeste já adotam práticas de conservação de nascentes e cursos d’água como parte da rotina produtiva. A preservação, nesses casos, está diretamente associada à manutenção da produção e ao futuro das propriedades.
Em Mato Grosso, o projeto Guardião das Águas, da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja MT), já mapeou mais de 105 mil nascentes em 56 municípios. De acordo com a entidade, mais de 95% dessas áreas permanecem em bom ou ótimo estado de conservação.
Conservação já faz parte do manejo no campo
Nas propriedades, práticas como preservação de áreas de vegetação nativa, manutenção de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e uso de plantio direto fazem parte do manejo. O objetivo é reduzir erosão, evitar o escoamento de insumos e manter a qualidade da água.
Às margens do rio Arinos, em Nova Mutum, o produtor Moacir Salmazo Júnior afirma que o cuidado com as nascentes é essencial para a continuidade da atividade agrícola.
“Desde agora, ensino ao meu filho que quando não existe o cuidado das nascentes, os rios desaparecem. E que, ao desaparecerem, tudo o que a gente representa, que é a produção de alimentos, acaba”, diz.
Segundo ele, a água está diretamente ligada à produtividade.
“A água representa a vida da minha família e das plantas que cultivo. Sem ela, não há comida, não há futuro. As matas ciliares, as áreas de preservação permanente são o começo e os tratos das lavouras, como o plantio direto, evitam o escoamento dos insumos e a erosão do solo”, afirma.
Água como patrimônio e responsabilidade
Em Alto Paraguai, o produtor Mário Zortéa Antunes Júnior também associa a preservação ao funcionamento da propriedade. “A água representa a vida. Vida para os animais, para as plantas, para o nosso ambiente e para a nossa propriedade”, afirma.
Para a nova geração, o tema já faz parte da formação.
“Se não cuidar, o rio seca, os peixes morrem, a natureza sofre”, diz João, filho do produtor. “Vou fazer igual meu pai, cuidar da natureza para que nada de ruim aconteça”, acrescenta Joaquim.
No Mato Grosso do Sul, a relação com a água também orienta decisões produtivas. Na Fazenda Macaúba, em Corguinho, o produtor Celso Brixner adotou práticas como pastejo rotacionado, recuperação de pastagens, curvas de nível e preservação de vegetação nativa, além da proteção de nascentes.
“Minha filosofia é a seguinte: plante uma árvore sem se preocupar com quem vai aproveitar a sombra. Não tenho grandes pretensões, mas faço de tudo para preservar”, afirma.
Conhecimento técnico reforça práticas já existentes
Com o apoio técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MS), as práticas passaram a ser organizadas dentro de um planejamento. A nascente da propriedade foi cercada, o poço protegido e medidas como coleta seletiva e melhorias na infraestrutura foram incorporadas.
“Nunca tive preocupação com a sigla, tudo que eu fazia era por experiência própria. Agora com o Senar, unimos o meu conhecimento de vida com o conhecimento técnico deles. Foi uma combinação poderosa”, afirma.
A proteção das nascentes, segundo o produtor, também tem impacto além da propriedade. ]
“Esse rio que nasce aqui, deságua no Aquidauana que segue para o Pantanal. Olha a importância de preservar isso que eu tenho no meu quintal. Faço com muito orgulho”, diz.
A experiência da fazenda faz parte de um conjunto maior de ações. Segundo o Senar/MS, mais de 2.200 nascentes já foram identificadas por técnicos de campo em mais de 60 municípios do estado.
Incentivos econômicos começam a surgir
Mesmo com essas práticas já consolidadas no campo, programas de pagamento por serviços ambientais começam a estruturar incentivos econômicos para ampliar a conservação. Em Goiás, por exemplo, o PSA Cerrado em Pé remunera produtores que optam por manter a vegetação nativa em áreas que poderiam ser legalmente desmatadas, com valores entre R$ 498,18 e R$ 664,25 por hectare ao ano.
A tendência é que iniciativas desse tipo ampliem o alcance das práticas já adotadas por produtores. Enquanto isso, no campo, a preservação segue sendo tratada como uma condição para produzir no longo prazo e garantir a continuidade das propriedades nas próximas gerações.
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