HomeEcologia

Dia da Água: Gestão hídrica no Brasil tem boas leis, mas trava na prática

Dia da Água: Gestão hídrica no Brasil tem boas leis, mas trava na práticaFoto: Imasul

Cinco bacias hidrográficas concentraram 81% do desmatamento no Cerrado
Sem zoneamento, MT discute bacias hidrográficas para planejar produção
Painel vai monitorar agrotóxicos nas águas brasileiras

Por André Garcia

No Dia Mundial da Água, celebrado neste 22 de março, o Brasil se encontra em uma posição paradoxal: possui um dos arcabouços institucionais mais completos do mundo para a gestão hídrica, mas ainda patina na transformação dessa estrutura em investimentos de larga escala. A conclusão faz parte de um estudo internacional realizado pelo Stockholm International Water Institute (SIWI), Arup e The Nature Conservancy (TNC), que analisou a segurança hídrica em 17 países.

Embora concentre cerca de 12% da água doce superficial do planeta, o País enfrenta pressões crescentes sobre os recursos hídricos, impulsionadas por mudanças climáticas, desmatamento, poluição e aumento da demanda. Esse cenário tem ampliado episódios de escassez e deterioração da qualidade da água em diferentes regiões.

Segundo o relatório, soluções baseadas na natureza, como restauração de vegetação nativa, recuperação de matas ciliares e proteção de nascentes, podem reduzir sedimentos, aumentar a infiltração de água no solo, estabilizar vazões e melhorar a qualidade da água. Essas medidas também contribuem para prolongar a vida útil de estruturas convencionais, como reservatórios e estações de tratamento.

Globalmente, os investimentos nessas soluções voltadas à segurança hídrica mais que dobraram na última década e alcançaram cerca de US$ 49 bilhões em 2023, indicando uma mudança na forma como governos e empresas avaliam a gestão de bacias hidrográficas.

Brasil tem estrutura pronta

No caso brasileiro, o estudo destaca a existência de um arcabouço institucional consolidado, com instrumentos como planos de bacia, outorga de uso da água, cobrança pelo uso do recurso e sistemas de informação hidrológica, que estruturam o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH). Esse modelo envolve órgãos federais, estaduais, municipais, comitês de bacia e usuários.

“O Brasil já possui um arcabouço institucional raro no mundo para integrar conservação ambiental e gestão da água. O desafio agora é transformar esses instrumentos em investimentos sistemáticos na proteção das bacias hidrográficas”, afirma Claudio Klemz, especialista em políticas públicas da TNC Brasil.

Além da Política Nacional de Recursos Hídricos, o estudo aponta que o Código Florestal, a Política Nacional sobre Mudança do Clima, a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais e o novo marco do saneamento ampliam as bases legais para integrar conservação ambiental às estratégias de abastecimento.

Pagamento por serviços ambientais

Na prática, essa integração já começa a ganhar escala em iniciativas de pagamento por serviços ambientais. Em Goiás, o programa PSA Cerrado em Pé registrou, no primeiro ciclo (2024–2025), 427 inscrições aprovadas, resultando na conservação de 15,9 mil hectares de vegetação nativa e no repasse de mais de R$ 8,2 milhões aos produtores participantes.

O programa também estima que cerca de 2,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono deixaram de ser emitidas no período. A maior parte das áreas preservadas está em imóveis de até quatro módulos fiscais, com 83,8% das áreas vinculadas à agricultura familiar e 33,4% localizadas em assentamentos da reforma agrária. Mulheres foram responsáveis por 36,8% das inscrições aprovadas.

As áreas contratadas são monitoradas continuamente com uso de imagens de satélite, alertas de desmatamento, dados de licenciamento ambiental e vistorias de campo, seguindo protocolo técnico padronizado.

Para o analista ambiental da Secretaria de Meio Ambiente de Goiás, Tiago Rocha, o avanço está na estrutura da política.

“O programa mostra que é possível construir uma política ambiental baseada em dados, com regras claras, monitoramento contínuo e presença em campo. O Sumário Executivo dá transparência a todo esse processo e deixa claro que o Cerrado em Pé já nasce como uma política madura, com resultados no primeiro ano e capacidade real de expansão no Cerrado goiano”, afirma.

Financiamento e capacidade são limites

Apesar dos avanços, o estudo internacional aponta que a expansão dessas soluções no Brasil ainda esbarra em desafios como a dependência de fontes de financiamento pontuais e as diferenças de capacidade técnica entre estados e municípios.

Em um cenário de eventos climáticos extremos mais frequentes, a tendência é de maior integração entre infraestrutura convencional e natural.

“Durante décadas, a gestão da água foi associada quase exclusivamente à construção de obras. Hoje sabemos que restaurar florestas, proteger nascentes e melhorar o manejo do solo pode ser tão estratégico quanto construir um reservatório”, afirma Klemz.

LEIA MAIS:

Pecuária consome 30% mais água que 5 estados somados

Inimigo dos rios, jacinto-de-água pode ser aliado da agricultura

Aquecimento de 4 °C e corrida por água acendem alerta no Cerrado

Cidades brasileiras correm risco de desabastecimento de água até 2050

Investidores alertam para prejuízo de US$ 300 bi por falta de água

Combate a incêndios florestais lança 4,1 milhões de litros de água em MT

Brasil depende da água e da comida produzida no Cerrado

Falta de água pode custar trilhões ao planeta