Sob o lema “Conectando a natureza para sustentar a vida”, a 15ª Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15/CMS) foi aberta oficialmente nesta segunda-feira (23), em Campo Grande (MS). O encontro, que reúne quase 2 mil participantes marca um momento histórico: é a primeira vez que o Brasil assume a presidência da conferência voltada à proteção global de animais que ignoram fronteiras geográficas em seus ciclos de vida.
O Pantanal foi o grande protagonista do dia, exaltado como símbolo da conectividade ecológica e da integração entre ciência, políticas públicas e saberes tradicionais. Contudo, o clima de celebração dividiu espaço com alertas urgentes.
Relatórios da ONU apresentados na abertura indicam que 24% das espécies listadas na Convenção estão ameaçadas e 49% apresentam queda populacional. A secretária-executiva da CMS, Amy Fraenkel, foi enfática ao cobrar maior cooperação internacional diante do aumento do risco de extinção.
Liderança brasileira e compromissos
À frente da presidência da COP pelo próximo triênio, o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), João Paulo Capobianco, defendeu uma agenda focada na implementação prática, com ampliação de investimentos e parcerias.
A ministra Marina Silva reforçou o compromisso do país com o multilateralismo, destacando que sediar o evento é uma oportunidade para impulsionar a proteção de espécies dos Anexos I e II da Convenção e fortalecer ações contra a mudança do clima.
Como país-membro, o Brasil lidera ou colidera sete propostas de inclusão nas listas de proteção, com destaque para peixes como o pintado, o cação-cola-fina e o cação-anjo-espinhoso, além de aves como o caboclinho-do-pantanal e os maçaricos de bico-torto e bico-virado.
Ao todo, a agenda de negociação da COP15 inclui mais de 100 itens, abrangendo desde o combate à caça ilegal e à mineração submarina até a inclusão de 42 novas espécies sob proteção internacional.
Ciência e “saúde única”
Um dos pontos altos do dia foi o debate sobre o conceito de “Saúde Única” (One Health). Especialistas ressaltaram que 75% das doenças infecciosas emergentes têm origem animal, e que o monitoramento da fauna migratória é essencial para antecipar crises sanitárias e pandemias. O exemplo da gripe aviária foi citado como prova da necessidade de troca imediata de informações entre as nações.
Paralelamente, o “Espaço Brasil” inaugurou suas atividades com painéis sobre a conservação de baleias no Atlântico Sul — tema que ganhou força com a recente criação do Parque Nacional Marinho e da APA do Albardão, no Rio Grande do Sul — e os impactos climáticos sobre peixes amazônicos.
Engajamento e sociedade
O encerramento do primeiro dia foi marcado por simbolismos e participação social. No “Dia Mundial do Urso”, a conferência lembrou o declínio global da fauna, enquanto a “Noite dos Campeões” homenageou iniciativas de destaque na conservação.
Para aproximar a sociedade civil dos debates técnicos, foi inaugurado o espaço “Conexões Sem Fronteiras” na Casa do Homem Pantaneiro. Reaberto após uma década, o local oferece atividades culturais e científicas, conectando a gastronomia e os saberes do Pantanal à agenda ambiental global.
Durante conversa com jornalistas, autoridades como Elizabeth Mrema (PNUMA) e cientistas reforçaram que, embora o cenário seja preocupante, a liderança estratégica do Brasil e o avanço em políticas como o Fundo Amazônia e o Bolsa Verde oferecem um caminho concreto para transformar negociações em resultados reais para a biodiversidade.

