O conflito no Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz criaram uma “tempestade perfeita” para o agronegócio global. O alerta é da diretora executiva do Imaflora, Marina Piatto, e do diretor de ESG, Eduardo Trevisan, em artigo assinado em conjunto para a Exame. O texto destaca que, embora o mundo olhe para o preço do combustível, a ameaça real reside em uma engrenagem invisível, mas vital: os fertilizantes.
O Estreito de Ormuz não é apenas a rota de um quinto do petróleo mundial. Ele é o canal por onde passa um terço da ureia e cerca de 30% do comércio global de fertilizantes, lembram os especialistas. Como o gás natural (abundante na região) é a principal matéria-prima para os adubos nitrogenados, qualquer instabilidade no Golfo Pérsico atinge diretamente a produtividade das lavouras.
Entre os principais riscos apontados pelos autores está a dependência do Brasil, que importa a vasta maioria dos fertilizantes que utiliza. Soja, milho e cana-de-açúcar respondem por mais de 70% desse consumo. Com o transporte comprometido, o custo de produção dispara.
O impacto, porém, não é apenas logístico. A interrupção da produção de amônia e ureia gera um desequilíbrio entre oferta e demanda, elevando os preços internacionais e, consequentemente, o valor da cesta básica.
Com isso, a segurança alimentar entra em xeque. Quase metade da produção mundial de alimentos depende hoje de nitrogênio sintético. Sem o insumo, a colheita minguaria, o que tornaria itens básicos como pão e batata inacessíveis para as populações mais vulneráveis.
Marina Piatto e Eduardo Trevisan reforçam que este cenário evidencia a fragilidade do modelo atual, extremamente dependente de combustíveis fósseis e de rotas geopolíticas instáveis.
A solução, segundo os especialistas e como temos apontado aqui no Gigante 163, passa pela aceleração da transição para bioinsumos e práticas que reduzam a dependência de fertilizantes químicos importados, garantindo uma soberania alimentar mais resiliente.
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