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Mudança no consumo chinês pode reforçar proteção da Amazônia

Mudança no consumo chinês pode reforçar proteção da AmazôniaMudanças podem alterar a lógica do comércio agropecuário. Foto: Chico Valdiner/Gcom-MT

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Por André Garcia

A China pode se tornar uma das maiores aliadas do Brasil na preservação da Amazônia. O principal comprador da carne bovina brasileira começou a dar sinais de que, além de volume, quer cada vez mais produtos com rastreabilidade, controle ambiental e garantia de origem livre de desmatamento.

Representantes da Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, responsável por cerca de 40% das compras chinesas de carne bovina brasileira, anunciaram o compromisso de adquirir 50 mil toneladas de carne sustentável e livre de desmatamento até o fim deste ano, após visita à Floresta Amazônica.

Um estudo da Embrapa Territorial e da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), ajuda a explicar esse fenômeno. Segundo a publicação, o crescimento do consumo de alimentos na China começa a desacelerar após décadas de expansão, fenômeno associado ao amadurecimento econômico do país.

Para se ter ideia, o consumo per capita de carnes na China saltou de 9,9 quilos por ano, na década de 1960, para 107 quilos em 2022, superando inclusive parte dos padrões observados na Europa. Isso aproxima o país de um ponto de saturação, no qual fatores como qualidade, segurança alimentar e diferenciação ganham mais relevância.

Mudança na lógica de mercado

Na prática, essa mudança pode alterar a lógica do comércio agropecuário global. Em vez de ampliar indefinidamente as compras de commodities, a tendência é que o mercado chinês se torne mais seletivo e aumente a pressão por cadeias produtivas transparentes e sustentáveis.

Os pesquisadores Pedro Abel Vieira Júnior e Antônio Márcio Buainan, da Embrapa e Ufscar, respectivamente, chamam a atenção para o papel do Estado na conquista desse mercado e para a necessidade de novas ações.

“A continuidade desse modelo — sua estabilidade, sua previsibilidade e sua capacidade de orientar investimentos de longo prazo — dependerá de entendimentos diplomáticos, garantias políticas e mecanismos institucionais que reduzam incertezas para ambos os lados”, afirmam.

Pressão chinesa pode influenciar proteção da Amazônia

Hoje, Brasil e China movimentam cerca de US$ 47 bilhões por ano no comércio agrícola e concentram 25% de todo o risco global de desmatamento associado ao comércio internacional de commodities agrícolas.

De acordo com análise da iniciativa Trase, cerca de 80% do risco de que as importações agrícolas chinesas estejam associadas a áreas recentemente desmatadas vêm do Brasil. No caso da pecuária, os produtos brasileiros representam sozinhos 61% desse risco.

Isso significa que qualquer mudança nos critérios de compra chineses pode gerar impacto direto sobre a forma como parte da produção agropecuária brasileira é conduzida, especialmente na Amazônia.

Rastreabilidade é fator estratégico

Nesse cenário, critérios como rastreabilidade, transparência e controle ambiental tendem a ganhar peso crescente na seleção de parceiros comerciais. Mas ainda há muito o que avançar.

Como já mostramos, nenhum frigorífico da Amazônia Legal comprova atender plenamente às exigências ambientais da Associação Chinesa de Carnes (CMA) para o comércio verde. Entre os principais gargalos identificados estão justamente a rastreabilidade da cadeia produtiva e o monitoramento de fornecedores indiretos.

Os números fazem parte de estudo do Radar Verde, que também mostrou que, entre as 31 plantas habilitadas a exportar diretamente para a China, 21 apresentam baixo nível de controle socioambiental e 10 possuem nível muito baixo de monitoramento das cadeias de fornecimento.

Mercado deixa de olhar apenas para volume

O estudo da Embrapa e da Ufscar aponta que a China possui histórico de evitar dependência excessiva de alimentos importados destinados ao consumo final da população. Quando as importações chegaram perto de um quarto do consumo interno chinês, o país passou a impor restrições, reforçando a segurança alimentar.

Para especialistas, isso indica que o futuro das exportações brasileiras pode depender menos da capacidade de ampliar volume e mais da capacidade de oferecer produtos confiáveis, rastreáveis e alinhados às novas exigências ambientais do comércio internacional.

“Eles são muito agressivos comercialmente e não podemos subestimar sua capacidade de adaptação e inovação”, destaca a analista Daniela Tatiane de Souza, da Embrapa Territorial.

Nesse contexto, a preservação da Amazônia deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ocupar posição cada vez mais estratégica para a competitividade do agronegócio brasileiro.

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