Resumo:
- A agricultura regenerativa consolidou-se como um negócio rentável no Brasil, registrando uma produtividade 15% acima da média nacional.
- Embora a prática seja viável e gere grande valor, o mercado comprador ainda não remunera diretamente o produtor por esses benefícios ambientais além da venda física dos grãos.
- A especialista Daniela Mariuzzo (IFC/Banco Mundial) defende que o setor precisa de capital catalítico — investimentos que assumem riscos iniciais para estruturar a base das operações antes que o mercado comece a pagar integralmente pelos ativos ambientais.
- O consórcio Reg.IA (criado pela Produzindo Certo e apoiado pela P4F do governo britânico) monitora 54 mil hectares de soja no Cerrado e na Amazônia. Além da alta produtividade, a iniciativa apresenta uma pegada de carbono 66% menor que a média.
- O mercado global e regras rígidas (como a lei europeia EUDR) exigem cada vez mais rastreabilidade e provas de redução de emissões dos fornecedores brasileiros.
- Para estruturar o mercado, o Ministério da Fazenda publicou um guia mapeando e sistematizando os principais ativos ambientais do país, passo essencial antes da definição oficial de preços.
Por André Garcia
Com produtividade 15% acima da média nacional, a agricultura regenerativa deixa de ser aposta e vira negócio rentável no Brasil, atendendo a marcas globais que cobram rastreabilidade e redução de emissões dos fornecedores. Na lavoura, a conta já fecha. O que falta agora é o mercado pagar pelo que ela entrega além da saca: carbono, biodiversidade e dados verificados.
“A agricultura regenerativa já gera valor sistêmico enorme para produtores, para compradores, para o clima. Mas uma parte significativa desse valor ainda não retorna ao produtor. O mercado reconhece, precisa, mas ainda não paga”, diz Daniela Mariuzzo, PhD e especialista em finanças sustentáveis.
Consultora de Risco Socioambiental para Instituições Financeiras na International Finance Corporation (IFC), braço de investimento privado do Banco Mundial, ela defende que, para ganhar escala, a estratégia precisa de capital catalítico.
Capital antes, receita depois
Criado para assumir maiores riscos e custos de estruturação onde o crédito tradicional ainda não atua, o capital catalítico prepara o solo para o mercado investir com segurança no futuro. É um investimento de impacto temporário: quando o projeto se torna financeiramente sustentável e o mercado começa a pagar, ele sai de cena.
“Existe uma confusão frequente: achar que iniciativas de agricultura regenerativa precisam de dinheiro externo porque não são viáveis. Na verdade, elas precisam de um investimento inicial para estruturar a base antes mesmo que o mercado esteja pronto para pagar por isso”, afirma Daniela.
O exemplo mais concreto disso no Brasil é a volta da Partnerships for Forests (P4F), no ciclo de 2026, ao Reg.IA, consórcio de agricultura regenerativa criado pela Produzindo Certo. Vinculada ao governo britânico, a P4F apoia negócios sustentáveis em várias partes do mundo.
Entre eles, o Reg.IA, que monitora 54 mil hectares de soja entre Cerrado e Amazônia. Além da produtividade 15% acima da média nacional, a pegada de carbono da soja nessas áreas fica 66% abaixo.
Engrenagem está girando
Do lado de fora, marcas globais e reguladores europeus cobram há anos prova de origem e de emissão de quem exporta. Com a EUDR, provar de onde veio o grão passa a ser condição para vender à Europa a partir de 30 de dezembro de 2026.
De dentro, o Estado começou a organizar o terreno. Em julho, o Ministério da Fazenda publicou um guia sistematizando os principais ativos ambientais brasileiros, da Cota de Reserva Ambiental ao crédito de carbono. Definir o que é o ativo é o passo que antecede a formação de preço.
“O Reg.IA já tem o potencial de resolver o problema técnico da agricultura regenerativa em escala e em diversos lugares, como o Cerrado e a Amazônia. Agora está construindo o que vem depois: como transformar dados verificados, carbono, biodiversidade e rastreabilidade em novas receitas para quem produz com boas práticas”, resume Daniela.
SAIBA MAIS:
O que é agricultura regenerativa – Não é uma técnica, é um conjunto de práticas voltadas à recuperação do solo: plantio direto, rotação de culturas, plantas de cobertura, integração lavoura-pecuária-floresta, menos insumo químico. A combinação muda conforme o bioma e a cultura. O princípio é tratar o solo como sistema vivo. Mais matéria orgânica significa mais água retida e mais carbono estocado em vez de emitido — daí os dois efeitos que interessam ao mercado: lavoura que aguenta melhor a estiagem e emite menos por saca.
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