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Solo bem cuidado protege a soja contra secas, revela Embrapa

Solo bem cuidado protege a soja contra secas, revela EmbrapaVista do experimento em Dourados (MS). Foto: Rafael Ferreira

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Resumo

  • Estudo de 28 safras conduzido pela Embrapa em Dourados (MS) revela que cada avanço na qualidade do manejo do solo aumenta em média 11,1% a produtividade relativa da soja, gerando uma diferença de 33 pontos percentuais entre o pior e o melhor sistema.
  • A pesquisa avaliou quatro níveis — desde o preparo convencional com grade e plantio repetido (NM1, com 44% de produtividade relativa) até sistemas conservacionistas avançados com plantio direto, rotação de culturas e integração com a pecuária (NM4, que alcança 77,2%).
  • Solos bem manejados retêm mais água, favorecem o crescimento profundo das raízes e aumentam a resistência da lavoura contra veranicos, amortecendo perdas em anos de seca moderada ou extrema
  • Alternar espécies vegetais nos últimos três anos melhora a estrutura física, aumenta a vida biológica do solo e facilita a infiltração de água, dando mais reservas para a planta.
  • O Zoneamento Agrícola de Risco Climático passou a considerar o manejo do solo, permitindo que lavouras com o nível NM4 recebam 40% de subvenção no seguro da soja, em comparação aos 20% do nível básico (NM1

Um estudo de 28 safras, conduzido pela Embrapa em Dourados (MS), traz um número que interessa direto ao bolso do produtor: cada avanço na qualidade do manejo do solo aumenta em 11,1%, em média, a produtividade relativa da soja. E quem sobe todos os degraus — do manejo mais fraco ao mais conservacionista — chega a uma diferença de 33 pontos percentuais entre o pior e o melhor sistema.

A pesquisa acompanhou 28 safras de soja, entre 1998 e 2026, em mais de 4,3 mil pontos de coleta na mesma área experimental. Os talhões foram organizados em quatro níveis de manejo, do mais simples ao mais elaborado: o NM1, que envolve preparo convencional (aquele com uso de grade antes do plantio) e plantio repetido da mesma cultura ano após ano; até o NM4, que combina plantio direto — sem revolver o solo — com rotação de culturas e integração com a pecuária.

A diferença de produtividade entre um nível e outro foi grande: 44% no NM1, 55,1% no NM2, 66,2% no NM3 e 77,2% no NM4 (valores relativos ao potencial máximo da lavoura). Ou seja, o mesmo solo, a mesma região e o mesmo clima — só muda o jeito de cuidar da terra.

Por que isso acontece

A explicação é simples: solo bem manejado funciona como uma caixa d’água natural. Quando não é revolvido com frequência e recebe cobertura vegetal e diversidade de plantas ao longo dos anos, ele consegue reter mais água, permite que as raízes cresçam mais fundo e aguenta melhor os veranicos — aqueles períodos sem chuva no meio da época chuvosa, comuns em Mato Grosso do Sul.

“Solos bem manejados armazenam mais água, oferecem melhores condições ao desenvolvimento das raízes e tornam a cultura da soja mais resistente às oscilações climáticas”, resume o pesquisador Júlio Cesar Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste.

O efeito aparece com mais força justamente quando mais importa: em anos de seca moderada. Nesses períodos, lavouras conduzidas com boas práticas mantiveram produtividade bem mais alta do que sistemas convencionais. Em situações de seca extrema, algumas áreas de manejo convencional simplesmente não produziram nada — enquanto sistemas conservacionistas conseguiram reduzir parte do prejuízo.

“O manejo adequado não elimina completamente os efeitos de uma seca extrema, mas aumenta significativamente a capacidade da lavoura de enfrentar déficits hídricos moderados e minimiza o risco de perdas severas”, diz Salton.

O estudo reforça que rotação de culturas pesa tanto quanto deixar o solo intacto. Alternar espécies vegetais nos últimos três anos, em vez de plantar sempre a mesma cultura, melhora a estrutura física do solo, aumenta a vida biológica dele e amplia a entrada de água. Na prática, isso permite que as raízes cheguem a camadas mais profundas — o que dá à planta mais reserva para segurar um período seco.

Boas práticas também pesam no seguro

Um efeito prático já está em teste: o Zoneamento Agrícola de Risco Climático passou a considerar a qualidade do manejo do solo, e não só clima e tipo de solo, para calcular o risco de cada área — é o chamado ZarcNM. Isso já reflete no bolso do produtor através do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural: talhões com o melhor nível de manejo (NM4) recebem hoje 40% de subvenção no seguro da soja, contra 35% no NM3, 30% no NM2 e 20% no NM1 — a subvenção padrão do programa.

Segundo a pesquisadora Michely Tomazi, essa mudança torna o acesso ao seguro mais justo, porque passa a valorizar o esforço do produtor em cuidar do solo, e não apenas o tipo de terra que ele tem. O ganho é relevante: dados do Ministério da Agricultura de 2022 mostram que 80,5% dos sinistros de seguro agrícola em Mato Grosso do Sul tiveram como causa a falta de água.

O ZarcNM ainda está em fase piloto — disponível para soja no Sul do país e em Mato Grosso do Sul, e para o milho de segunda safra no Paraná e em Mato Grosso do Sul —, mas a expectativa da Embrapa é expandir a metodologia para outras culturas e regiões nos próximos anos.

Com informações da Embrapa Agropecuária Oeste