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COP26: “Reduzir emissões de metano gera ganhos para pecuária”, diz físico

COP26: “Reduzir emissões de metano gera ganhos para pecuária”, diz físico

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Uma grande notícia vinda de Glasgow, na Escócia: O Brasil e mais e cem países aderiram ao Compromisso Global de Metano que promete reduzir em 30% as emissões deste tipo de gás até 2030 em relação aos níveis de 2020. O acordo foi assinado na terça-feira, 2/11, durante a conferência sobre o clima da Organização das Nações Unidas (ONU), COP26, na cidade escocesa.

O Brasil é o quinto maior emissor de metano, produzido pelo sistema digestivo do gado, que é 80 vezes mais potente no aumento da temperatura da Terra que o dióxido de carbono (CO2). E o Mato Grosso é o campeão em emissão deste gás no país.

O físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, que está na COP26, falou sobre a importância desse acordo. Leia abaixo a entrevista.

Qual é a importância do Compromisso Global do Metano?

O acordo sobre metano é de extrema importância na questão das mudanças climáticas por várias razões. A primeira delas é que o metano tem vida curta na atmosfera, de 12 anos e, com isso, qualquer redução nas emissões tem um impacto a curto prazo muito forte.

Segundo, o metano é o segundo gás em importância em efeito estufa, e ele corresponde hoje a cerca de 50% do aquecimento causado pelo CO2. O metano é muito significativo.

As principais fontes de metano para a atmosfera são duas: primeiro, pecuária, por meio da digestão entérica dos animais. Segundo, a exploração de gás natural através de vazamentos de gás natural, que são grandes emissores de metano.

O curioso é que as estratégias para reduzir as emissões de metano dão ganhos de produtividade para esses dois setores, pecuária e indústria do gás.

Com a redução da emissão de metano do gado bovino através da melhoria da qualidade dos pastos, você reduz, claro, a emissão de metano e, ao mesmo tempo, com o controle dos vazamentos, da indústria de gás, já que é a maneira mais rápida e barata de reduzir as emissões de metano.

Eles estão jogando fora na atmosfera o metano que eles poderiam vender e que, portanto, também tem um ganho de produtividade importante.

Essa redução de 30% das emissores de metano é extremamente importante e dá ganhos de lucratividade para as empresas que reduzirem suas emissões. Todos ganham com essa redução.

No Brasil, com tecnologia que tem, você acredita que isso é viável em curto prazo?

Estudos da Embrapa no Brasil dizem que a melhoria da qualidade da pastagem pode fazer uma redução de cerca de 20% nas emissões. Acima disso, você tem realmente que alterar a produtividade do rebanho com adição de alguns produtos na dieta do gado. Uma das experiencias que está sendo feita é a adição de algas marinhas. Se 5% da dieta dos animais for associada com algas marinhas, você consegue redução de metano da ordem de 30 e 35%. São técnicas simples, fáceis de serem implementadas, de baixo custo e que podem trazer benefícios enormes para as questões de mudanças climáticas no Brasil.

Qual é o porcentual das emissões de metano pela pecuária no Brasil?

A atividade agropecuária no País é responsável por 47% das emissões de gases de efeito estufa no levantamento do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima) da semana passada. Desses 47%, cerca de 80% estão associados à pecuária.

A pecuária é uma fatia importante e a modernização da pecuária pode trazer menos emissões e, ao mesmo tempo, ganhos de produtividade.

Com o Acordo sobre Floresta e o acordo do metano, não estamos saindo do zero dessa COP?

Não estamos saindo do zero dessa COP. Digamos que é esperar demais que uma única reunião resolva um problema tão complexo quanto o das mudanças climáticas globais. Nós já estamos saindo com duas direções importantes: a primeira, reduzir o desmatamento a zero. Segundo, reduzir as emissões de metano, mas o ponto mais importante é reduzir as emissões de CO2 do setor de energia, em particular do carvão e gás natural. Ainda está faltando esse terceiro ponto que esperamos que seja assinado algum acordo de forte redução de queima de combustíveis fosseis e, basicamente, da neutralidade de emissão de carbono nos países desenvolvidos até 2030. Então isso vai ser muito bem-vindo e vai caracterizar um sucesso da COP.

Fonte: entrevista concedida a jornalista do Brazil Climate Action Hub