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Floresta em pé é infraestrutura para o agro, aponta estudo

Floresta em pé é infraestrutura para o agro, aponta estudoAlinhar as práticas no campo à conservação tornou-se urgente. Foto: ADM

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A busca por uma produção rural sustentável a longo prazo tem colocado a agricultura regenerativa no centro dos debates ambientais e agrícolas no Brasil. Diante de mudanças climáticas que ameaçam diretamente as safras, a necessidade de alinhar as práticas no campo à conservação tornou-se urgente.

Em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), a pesquisadora Ludmila Rattis, que também atua no Centro de Pesquisa Climática Woodwell, detalhou como a vegetação nativa funciona como um verdadeiro ativo econômico e produtor de chuva para o próprio agronegócio.

Historicamente, os modelos de produtividade agrícola consideram apenas o tripé clima, solo e manejo. No entanto, investigações conduzidas pelo Ipam nos últimos anos trouxeram dados inovadores ao incluir variáveis ecológicas nessas equações.

As análises mapearam o impacto da vegetação nativa em larga escala e identificaram que um raio de 30 quilômetros de floresta é o ideal para influenciar positivamente as lavouras na Amazônia, enquanto no Cerrado essa escala estimada é de 55 quilômetros.

“Ninguém planta floresta para aumentar produtividade. A pessoa joga um fertilizante, pesticida, inseticida, tenta plantar numa terra boa. O modelo de produtividade do agrônomo é baseado em clima, solo e manejo. E está tudo bem. A inovação do trabalho do Ipam foi que, incluindo variáveis ecológicas, como a presença da floresta, investigamos e descobrimos que o papel da floresta – no sentido de fitofisionomia florestal – é muito mais importante do que se imaginava. E isso parece ser uma jaboticaba, bem brasileira. Ou amazônica, eu deveria dizer. Mas te pergunto: sorte ou azar de dependermos tanto da floresta como parte da infraestrutura produtiva? Se vivemos em um mundo que entende a floresta como o ativo que é, isso é sinal de sorte, muita sorte”, avalia Rattis.

As conclusões do Ipam, que serão publicadas em um artigo científico até o fim deste ano, confirmam que o modelo agronômico-ecológico explica a produtividade de culturas como a soja de forma muito mais eficiente do que as análises tradicionais. Na prática, a floresta atua como um escudo para o bolso do produtor.

“Quanto mais floresta tem, mais produtividade. Esse efeito não vai embora. Se o ano for de El Niño, bem seco mesmo, o papel da floresta fica mais importante ainda, tanto para evitar a perda quanto para aumentar e/ou manter a produtividade. Estamos corroborando isso em campo. Tem produtor que trabalha com manejo da paisagem e consegue manter a produtividade em um ano de El Niño bravo. Quem despreza a paisagem, perde. E perde muito, às vezes perde tudo”, alerta a pesquisadora.

Uma questão de escala

Diante desse cenário, surge o questionamento se a agricultura regenerativa seria suficiente para resolver a crise climática atual. Para Rattis, a resposta depende diretamente da escala em que as ações são aplicadas, defendendo que práticas isoladas dentro dos talhões de uma fazenda não surtem o efeito necessário.

“Aí vem a questão de qual agricultura regenerativa estamos falando. Ela tem que ser uma abordagem na escala da paisagem. Manejo de talhão não resolve crise climática. Já que a gente tem uma lei de proteção à vegetação nativa no Brasil, temos que usar isso a favor do setor agrícola para poder pensar em mitigação; e por que não, em adaptação?”, explica.

Atualmente, um grupo multidisciplinar formado por produtores rurais, formuladores de políticas públicas, economistas e cientistas de diferentes instituições trabalha na redação de um artigo para definir os parâmetros da chamada “agricultura regenerativa tropical”. O conceito vai além das práticas comuns de manejo do solo.

“Há alguns pilares, por exemplo, de manter o solo vivo e os ciclos biogeoquímicos, também a biodiversidade e o manejo do sistema agrícola integrado. Mas a floresta entra como parte da infraestrutura produtiva, como mostram os modelos de produtividade. Essa agricultura regenerativa, com pilares e premissas, de maneira escalável e com design de incentivo, sim, pode resolver. A agricultura regenerativa que fala apenas de plantio de cobertura, rotação de lavouras, de plantio direto e de intensificação, não.”

O Cerrado e as pontes com o setor produtivo

O debate ganha contornos específicos no Cerrado, bioma que abriga a maior parte do agro brasileiro e onde a maioria dos remanescentes nativos está localizada dentro de fazendas particulares.

Questionada sobre a viabilidade de aumentar os percentuais de Reserva Legal na região, Rattis argumenta que o foco político e econômico deveria se voltar, primeiramente, para a proteção do que hoje pode ser desmatado legalmente.

“Antes da gente falar sobre isso, a gente tem que falar sobre proteger os excedentes que estão lá. Digo isso até por uma questão de segurança do produtor, porque vegetação nativa em pé é resiliência climática na paisagem, é aparelho de ar-condicionado. Se estamos verificando a possibilidade de chegar um El Niño forte, você vai vender seu ventilador, seu ar-condicionado que você tem em casa? A gente não faz isso dentro de casa, com nós mesmos, então por que vamos fazer isso com as fazendas? É preciso um sistema de incentivo para, antes de falar do aumento de reserva legal, falar do aumento da proteção do que pode ser desmatado. Falar de aumentar reserva legal não ajuda na construção de pontes que a gente tenta fazer.”

Mudança de mentalidade

Ao analisar os avanços do setor nos últimos anos, a pesquisadora destaca uma mudança expressiva de mentalidade. O negacionismo climático, que antes era forte no País, hoje atinge índices baixíssimos, o que tem permitido a busca por denominadores comuns entre diferentes atores da cadeia produtiva. Contudo, ela ressalta que as discussões políticas não podem ignorar os limites físicos da natureza.

“No começo a gente não conversava, há pessoas que são mais pró-proteção, outras que são mais pró-cumprimento da lei ipsis litteris ou as que são contra a lei… Hoje em dia a gente tenta chegar num denominador comum. É melhor isso do que perder tudo o que tem, ainda que haja o inegociável. Mas a gente precisa seguir o consenso científico. Nosso papel é falar. Dá para discutir o Código Florestal enquanto lei, mas não dá para discutir a lei da biofísica.”

Para ilustrar o impacto real e imediato do desmatamento na dinâmica do clima e da umidade na Amazônia e no Cerrado, Rattis traduz a perda ambiental de cada árvore derrubada em números práticos.

“Não tem uma árvore que fala ‘já que estou caindo legalmente aqui, não vou ter os impactos do desmatamento’. Uma árvore caindo significa 300 litros de água que deixam de circular diariamente. É uma energia equivalente a dois aparelhos de ar-condicionado que deixam de dissipar a cada hora. A terra fica seca e com febre. A gente saiu de um ponto muito ruim, mas estamos indo ainda pior do que os modelos mais pessimistas falavam em termos de mudanças climáticas. Vamos ter que absorver as consequências, que não são poucas. Temos muito o que avançar ainda, a maior parte do caminho está pela frente”, conclui.