O Brasil possui áreas abertas e subutilizadas suficientes para suprir toda a demanda de produção agrícola pelas próximas duas décadas, sem a necessidade de novos desmatamentos. A afirmação é de Fernando Sampaio, engenheiro agrônomo (ESALQ/USP) e membro da Coalizão Brasil, em entrevista à newsletter “Um Grau e Meio”, do IPAM.
Segundo o especialista, o País já domina a tecnologia para uma agropecuária de baixo carbono, mas enfrenta o desafio de democratizar esse acesso e combater a ilegalidade no campo.
“Se observarmos friamente, o que temos de área já aberta hoje no Brasil, vasta, degradada e subutilizada, seria o suficiente para suprir toda a demanda atual e futura de pelo menos duas décadas”, destaca Sampaio.
Para ele, o sucesso tecnológico que transformou o Brasil de importador de alimentos, na década de 1960, em potência mundial — superando pragas e doenças do clima tropical — agora exige um novo tipo de eficiência voltado à mitigação climática.
Tecnologia e barreiras na transição
O engenheiro cita o plantio direto, a recuperação de pastagens, a Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) e o uso de bioinsumos como os pilares de um modelo que permite aumentar a produção enquanto sequestra carbono no solo. No entanto, ele ressalta que a aplicação em larga escala esbarra na falta de assistência técnica e crédito para o pequeno produtor, além de uma dinâmica histórica de ocupação.
“O Brasil também é um país com uma história recente de ocupação do território. Logo, muitas políticas diferentes incentivaram pessoas a migrarem para o Centro-Oeste e Norte, com regiões de fronteira agrícola na Amazônia e no Cerrado, onde novas áreas são desmatadas para serem ocupadas com agricultura”.
Hoje, ele defende que essa lógica mude para a valorização da floresta em pé.
“O nosso trabalho na Coalizão, de forma geral, é pensar em conter o desmatamento por meio de políticas públicas. Não precisamos desmatar mais para produzir mais. Pensando nisso, como geramos valor para a floresta em pé? Quais são as políticas e os instrumentos financeiros de que precisamos para dar valor à floresta em pé?”
Financiamento e o peso da ilegalidade
Sampaio aponta que o financiamento via Plano Safra (como Renovagro e ABC+) é essencial, embora o subsídio brasileiro ainda seja menor que a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Ele destaca o aumento do rigor do Banco Central, que orienta o corte de crédito para quem pratica desmatamento ilegal — prática que ele classifica como a “maior ferida do setor”.
“É um avanço, por exemplo, pois os produtores que desmatam sem autorização não poderão mais receber empréstimos”, diz.
Para o especialista, o desmatamento ocorre por duas vias: a grilagem em terras públicas, que exige regularização e monitoramento; e em áreas privadas, onde “economicamente vale mais a pena desmatar e produzir do que conservar”.
Para reverter esse cenário, Sampaio defende instrumentos como o mercado de carbono e Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA).
Agricultura vs. Petróleo na COP30
Durante a COP30 em Belém, o setor buscou se diferenciar das indústrias extrativas. Sampaio faz uma distinção clara entre a transição energética e a alimentar:
“O petróleo gera emissões de gases do efeito estufa, mas você consegue adotar uma transição energética com outras fontes de energia menos poluentes ou menos emissoras. Essa é a grande discussão da COP. Agricultura, porém, não é algo a ser dispensado ou trocado, porque todo mundo ainda vai precisar comer. Logo, a produção agrícola não pode parar como a do petróleo”, disse.
A estratégia, segundo ele, é mostrar que a importância de olhar para a agricultura como parte dessa solução, a partir da adoção de uma agricultura sustentável que reduzirá impactos.
“A discussão é principalmente sobre inovação na tecnologia para melhorar a eficiência da agricultura e desvinculá-la do desmatamento”.
O custo da conservação
A prioridade, segundo Sampaio, é controlar a ilegalidade, que vai frear o desmatamento mais rápido.
“Acabando com o desmatamento ilegal e implementando o Código Florestal, ficamos muito próximos de um cenário de desmatamento zero. Já a terceira ação depois disso seria a criação de mecanismos de incentivo para o produtor manter a floresta em pé para além daquela exigida por lei”.
Ele critica a lentidão na implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o peso financeiro sobre quem preserva.
“Adequar-se ao Código Florestal tem um custo ao produtor. Apesar de gerar um benefício a todos, o produtor rural paga sozinho a conta”, ressalta.
Sampaio conclui que a agricultura regenerativa só será predominante se houver valor financeiro real para a conservação.
“Precisamos pensar em como podemos gerar valor financeiro à conservação para mudarmos essa mentalidade”.

