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Produtores apostam em recuperação de nascentes para enfrentar seca

Produtores apostam em recuperação de nascentes para enfrentar secaProdutores contam com apoio técnico da Seapa e da Emater. Foto: Seapa

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Por André Garcia

A recuperação de nascentes é a aposta do município de Anápolis (GO) para evitar que a seca comprometa a produção no campo e desabasteça a cidade. Por meio do Programa Produtor de Água (PPA), 100 propriedades rurais devem conservar 1.000 hectares do Cerrado, restaurar outros 500 e readequar 500 quilômetros de estradas até 2029.

As ações já alcançam 88 hectares nas bacias do Ribeirão Piancó, Rio das Antas e Rio Caldas, fundamentais para a segurança hídrica da região por abastecerem a população e o Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA), polo central da economia local.

“É uma ação estruturante que alia produção sustentável, recuperação do Cerrado e garantia de água para o presente e o futuro”, afirma o secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Pedro Leonardo Rezende, ao destacar que a proposta é mostrar que práticas sustentáveis podem garantir água e agregar valor à atividade rural.

Incentivo ao produtor

A adesão dos produtores é voluntária e garante apoio técnico da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) e da Emater Goiás na implementação dos Projetos Individuais de Propriedade (PIP). Além disso, os selecionados também poderão receber incentivo financeiro por meio do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

O trabalho envolve ainda a Prefeitura de Anápolis e o Instituto de Conservação Ambiental The Nature Conservancy do Brasil (TNC).

Enfrentando o problema

O PPA Anápolis foi criado para responder aos riscos de déficit hídrico enfrentados pela região, que chegou a decretar emergência em 2021. Mas o problema vai além das fronteiras do município. No Cerrado, bioma que abrange todo o território de Goiás e alcança outros 14 estados, a perda de água ocorre em velocidade preocupante.

De acordo com o relatório “Cerrado: O Elo Sagrado das Águas do Brasil“, publicado em junho deste ano, o volume transportado pelos rios caiu 27% desde a década de 1970. É como se o bioma deixasse de bombear 30 piscinas olímpicas por minuto, afetando seis grandes bacias hidrográficas que abastecem boa parte do País.

Conservar para não secar

Nesse cálculo, uma estratégia de curto prazo contrapõe a proposta da proposta: a irrigação , que aumenta a sobrecarga dos aquíferos e reduz a vazão dos rios. No Cerrado, que concentra mais de 70% dos equipamentos de irrigação do país, os índices mostram que a prática não afasta o risco da seca e de prejuízos ao produtor.

Diante da crise climática e de períodos de seca cada vez mais frequentes e intensos, o desafio de garantir água para as lavouras fica ainda maior. Estimativas apontam que em regiões como o Matopiba, por exemplo, até 40% da demanda de irrigação pode não ser atendida nas próximas décadas, com aumento de até 40% nos custos de energia.

Neste cenário, conservar as nascentes se mostra como a estratégia mais inteligente para garantir a produtividade mesmo em períodos de seca. É a partir dessa lógica que o Programa investe em restauração florestal, conservação de solo para proteger os mananciais que sustentam a agricultura, a cidade e a indústria.

A estratégia do PPA

Entre as medidas previstas estão práticas de conservação de solo, restauração ecológica, saneamento básico e incentivo à adoção de técnicas agropecuárias de baixo impacto.  Na Fazenda Três Pontas, por exemplo, já foram realizados terraceamento, construção de cacimbas e readequação de estradas vicinais.

O que se espera com isso é a redução da erosão, que favorece a infiltração da água no solo e garante a recarga dos lençóis freáticos, que alimentam as nascentes. Sem esse processo, a água escoa rapidamente pela superfície, reduzindo a vazão dos mananciais que abastecem a agricultura, a cidade e a indústria.

 

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