Resumo
• Uma coalizão de 26 instituições financeiras liberou US$ 954 milhões entre 2021 e 2025 para financiar produção sem desmatamento no Brasil
• Os recursos cobriram 668 mil hectares de soja e pecuária, mais de quatro vezes a área do município de São Paulo
• 97,8% do dinheiro foi para o Cerrado; a Amazônia recebeu apenas 2% do total
Por André Garcia
Uma coalizão de 26 bancos e investidores internacionais liberou US$ 954 milhões entre 2021 e 2025 para financiar soja e pecuária sem desmatamento no Brasil. O valor está perto da meta de US$ 1 bilhão e consolida algo que o mercado financeiro ainda duvidava ser viável: emprestar dinheiro para o agronegócio com a condição de não derrubar floresta.
Os dados são do relatório anual do IFACC, plataforma que conecta capital privado a produtores rurais dispostos a crescer sem converter vegetação nativa. Com os recursos, foram financiados 668 mil hectares de produção de soja e pecuária livres de desmatamento, mais de quatro vezes a área do município de São Paulo.
“O Brasil deixou de discutir se é possível financiar uma agricultura sem desmatamento e passou a operar esse modelo em escala relevante. Quase um bilhão de dólares em quatro anos, em um cenário de juros elevados, mostra que o mercado encontrou uma lógica econômica consistente para a transição”, diz Marcos Gambi, gerente de Finanças Agrícolas da TNC Brasil.
Oportunidades para a Amazônia
Mas os números escondem um desequilíbrio importante. Do total investido, 97,8% foi destinado ao Cerrado, quase tudo em soja. A Amazônia ficou com apenas 2% e por uma razão estrutural: o mercado financeiro ainda não sabe precificar o risco da floresta. Castanha, açaí e óleos vegetais têm ciclos longos, volumes menores e menos garantias do que uma lavoura de soja.
“O modelo que funcionou no Cerrado não pode ser simplesmente copiado para a Amazônia. São cadeias, produtores e tempos diferentes. O desafio é desenvolver instrumentos financeiros que reconheçam essa complexidade, em vez de excluir quem não se encaixa no padrão”, avalia Gambi.
Para mudar esse cenário, o IFACC lançou, em novembro de 2025, o CCAT (sigla em inglês para Capital Catalítico para a Transição Agrícola), um fundo voltado a reduzir riscos e ampliar o alcance do financiamento verde no campo. Gerido pela Vox Capital, com a TNC como consultora de impacto socioambiental, o fundo recebeu um aporte inicial de US$ 50 milhões.
Reduzindo o risco de investimento
Diferentemente do crédito direto ao produtor, o CCAT atua assumindo as fatias de maior risco em operações estruturadas por bancos e securitizadoras, funcionando como um mecanismo de proteção para investidores privados. A expectativa é que, ao reduzir o risco da operação, cada US$ 1 colocado pelo CCAT atraia outros US$ 4 em capital privado.
A meta é alcançar US$ 200 milhões em aportes até 2028, o que pode destravar US$ 800 milhões adicionais em investimentos de mercado. Paralelamente, o segundo leilão do programa Eco Invest, do Tesouro Nacional, mobilizou cerca de R$ 16,5 bilhões em recursos de baixo custo para que bancos brasileiros financiem a recuperação de áreas degradadas.
“O CCAT atua como um redutor de risco, viabilizando operações que o mercado ainda não consegue bancar sozinho, seja pela incerteza do retorno ou pelo prazo mais longo que a transição exige. Ele complementa políticas públicas, como o Caminho Verde e o Eco Invest, fortalecendo a alavancagem entre capital público e privado”, explica Gambi.
Saiba mais
O que é o IFACC
Criado em 2021, o IFACC é uma plataforma que reúne bancos, investidores e empresas do agronegócio para financiar produção rural sem desmatamento no Brasil. A iniciativa atua no Cerrado, na Amazônia e no Chaco argentino.
O que é capital catalítico
É um tipo de investimento que aceita mais risco para atrair capital privado convencional. Funciona como uma garantia: ao absorver as perdas iniciais de uma operação, viabiliza a entrada de investidores que não topariam o risco sozinhos.
O que é bioeconomia
Modelo econômico baseado no uso sustentável da biodiversidade. Na Amazônia, inclui cadeias como castanha, açaí e óleos vegetais, produtos extraídos da floresta em pé.
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