Por André Garcia
O produtor rural que não priorizar estratégias de adaptação às mudanças climáticas passará a ser percebido como um cliente de maior risco pelo sistema financeiro. A avaliação é de Fabiana Alves, presidente do Rabobank no Brasil, durante o Congresso Brasileiro de Direito do Agronegócio, na segunda-feira, 30/3.
“O clima é um ativo essencial, produtivo, sem o qual não há produtividade, não há estabilidade nem retorno econômico. Ao mesmo tempo, ele não está no controle do produtor, está mais volátil a cada dia e é um ativo para o qual a gente não tem seguro”, destacou a executiva.
De acordo com ela, diante da crescente instabilidade climática, as instituições passaram a incorporar dados georreferenciados, histórico de produtividade e variabilidade climática na análise de crédito, com o objetivo de avaliar a exposição das propriedades a eventos extremos.
“Os bancos estão intensificando o monitoramento das áreas financiadas com uso de geodata e dados climáticos. Hoje já é possível sobrepor regime de chuva, histórico de perdas e variabilidade hídrica para estimar risco de quebra de safra.”
Ativo econômico
Nesse cenário, o clima deixa de ser apenas uma variável externa e passa a ser um fator econômico determinante para a atividade. No Brasil, esse fator está diretamente ligado ao regime de chuvas, que sustenta a produção e viabiliza a segunda safra em diversas regiões.
“O primeiro incentivo à segurança climática é o próprio Código Florestal. O primeiro desincentivo é o desmatamento desenfreado”, disse Fabiana ao reforçar que essa dinâmica depende de uma estabilidade ecossistêmica associada à preservação.
Presidente do Rabobank, Fabiana Alves, durante painel no Congresso Brasileiro de Direito do Agronegócio. Foto: Reprodução
Análise baseada em dados climáticos
Ao incorporar essa nova variável de risco, o crédito rural passa a ser estruturado com maior nível de rastreabilidade, conectando o financiamento ao uso do solo e à exposição climática das áreas produtivas.
No Brasil, a Resolução 5.267 do Banco Central criou bases para essa integração, enquanto exigências de transparência sobre risco climático avançam em outros mercados, especialmente na Europa.
Na prática, a capacidade de adaptação do produtor vai influenciar cada vez mais as operações. Estratégias como manejo do solo, retenção de água, diversificação produtiva e preservação ambiental tendem a reduzir a percepção de risco e melhorar o acesso ao crédito.
“Faz mais sentido abrir mais área ou garantir a resiliência climática da área que você já tem? Não é pela sustentabilidade ambiental, é pela sustentabilidade econômica do ativo”, disse a executiva.
Seguro rural ainda é gargalo
Fabiana também chamou a atenção para a fragilidade do seguro rural no Brasil. A baixa cobertura e capacidade limitada de absorver perdas aumentam o risco do sistema e afetam as condições de financiamento. “É o seguro que vai garantir a fluidez do crédito em qualquer momento drástico, seja ele climático ou não”, acrescentou ela.
Compliance ambiental
A mudança também amplia a exigência de compliance ambiental pelos bancos, que precisam verificar se o produtor cumpre a legislação antes de liberar o recurso. Diante da falta de dados públicos confiáveis e integrados, as instituições têm criado estruturas próprias de verificação, o que encarece as operações.
“Os bancos estão tendo que fazer além do seu papel, por risco reputacional e pela falta de dados públicos confiáveis”, afirmou.
Um dos principais entraves, segundo ela, é o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que ainda não está totalmente analisado e validado. “Sem o CAR, a gente não consegue garantir o compliance ambiental nem usar adequadamente os instrumentos de incentivo à segurança climática”, concluiu.
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