O cenário para a segurança alimentar global no segundo semestre de 2026 é preocupante. Cientistas climáticos e analistas de mercado alertam para a formação de um “Super El Niño”, fenômeno que deve atingir seu ápice entre outubro e dezembro.
O fenômeno, que aquece as águas do Pacífico e desestabiliza o clima mundial, surge em um momento delicado, com a oferta de insumos básicos estrangulada pelos conflitos no Oriente Médio, de acordo com a rede de jornalismo de negócios CNBC.
Diferente de eventos convencionais, os modelos climáticos europeus e norte-americanos indicam uma chance de uma em três para a ocorrência de um “Super El Niño” — quando as temperaturas do mar sobem pelo menos 2°C acima da média.
Para Paul Donovan, economista-chefe do UBS (banco suíço que é referência global em análise de investimentos), o risco climático pode ser o golpe de misericórdia nos preços agrícolas este ano, superando até mesmo a crise dos fertilizantes.
“Em 2026, a seca e o abastecimento limitado de água podem ser ameaças maiores do que a própria escassez de nitrogênio”, afirma Donovan.
No Centro-Oeste brasileiro, o fenômeno causa principalmente o aumento das temperaturas e a irregularidade das chuvas, elevando o risco de eventos climáticos extremos.
O resultado é uma pressão direta sobre commodities essenciais como açúcar, arroz, cacau e óleos vegetais, além de encarecer a produção de carnes devido ao impacto nas safras de soja destinadas à ração. Isso sem falar em soja, milho, trigo, entre outras.
Desafio logístico
A crise climática encontra um mercado de insumos já fragilizado pela guerra envolvendo o Irã, que paralisou o tráfego no Estreito de Ormuz. A via é o principal canal para um terço do comércio mundial de fertilizantes transportados por mar.
Desde o início das operações militares em 28 de fevereiro, o fluxo de navios cessou quase totalmente. Com o petróleo acima de US$ 100, os custos de transporte, gás natural e fabricação de defensivos dispararam, impactando diretamente os agricultores americanos e globais no início da temporada de plantio.
Apesar do anúncio de uma trégua temporária na última quarta-feira, especialistas acreditam que as interrupções logísticas terão efeitos duradouros na cadeia de suprimentos.
Insegurança alimentar em níveis recordes
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU emitiu um alerta severo: caso o conflito persista após junho, o número de pessoas em situação de fome aguda pode aumentar em 45 milhões. Atualmente, 318 milhões de pessoas já sofrem de insegurança alimentar no mundo.
Chris Jaccarini, analista da Unidade de Inteligência de Energia e Clima, resume o dilema:
“Os preços dos alimentos estão sendo pressionados por dois lados: extremos climáticos que interrompem a produção e um sistema alimentar ainda dependente de fósseis, exposto a aumentos repentinos nos custos de gás e logística”.

