O agronegócio brasileiro acompanha com atenção os desdobramentos do conflito no Oriente Médio, importante parceiro comercial do País. O setor teme impactos tanto no escoamento de exportações estratégicas, como carne bovina, frango e milho, quanto na importação de insumos essenciais à produção agrícola, a exemplo dos fertilizantes nitrogenados.
Entre as principais preocupações estão as restrições logísticas em rotas-chave, como o Estreito de Ormuz, fechado nesta segunda-feira, e a possibilidade de alta de custos diante da escalada das tensões geopolíticas.
Um dos pontos de maior incerteza envolve dez navios programados para carregar, nos próximos dias, cerca de 660 mil toneladas de soja e farelo de soja com destino ao Irã, segundo dados da Alphamar Agência Marítima.
Dos dez navios, segundo o Globo Rural, seis já estão na área de fundeio dos portos brasileiros aguardando o carregamento e quatro estão em trânsito. A distribuição logística abrange os portos de Santos (5), Paranaguá (4) e Tubarão (1). A dúvida central das tradings é se manterão os negócios originais ou se redirecionarão as embarcações para outras rotas diante do risco elevado.
Para Pablo Ibañez é professor de Geopolítica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e coordenador pedagógico do programa GeoAgro do Centro de Aprendizagem e Cultura do Imaflora (Cacuí), o agronegócio nacional pode ser vítima indireta da escalada desse conflito.
“O Irã é um parceiro importante do país. Exportamos muito milho e carnes, em especial, frango. Também importamos ureia, importante insumo agrícola para fertilizantes. Há ainda a questão das rotas marítimas na região, que pode impactar o comércio também com outros países do Oriente Médio. A região é um dos principais mercados de aves brasileiras, por exemplo”, afirma
Segundo o especialista, desde o início da década, o Irã vinha intensificando as relações comerciais com o Brasil, o que, em 2025, gerou superávit de quase US$ 3 bilhões para a balança brasileira.
“Agora, não apenas esse resultado pode ser inviabilizado, como há tensão também em relação às condições futuras de comércio com outros países da região, caso Teerã feche o estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, principal rota comercial entre Oriente Médio e Ocidente”, explica Ibañez.
Carne
O Brasil lidera a produção mundial de carne halal, abatida sob os preceitos da lei islâmica, e depende do Estreito de Ormuz para escoar a produção. As exportações brasileiras de carne bovina para os países árabes fecharam 2025 com alta de 1,91% em relação ao ano anterior, somando US$ 1,79 bilhão, conforme dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) informou que está acompanhando o desenrolar da situação, mas ressaltou que, por enquanto, não há informações das empresas sobre impactos concretos.
Frango
Os exportadores brasileiros já avaliam novas rotas para manter o fluxo para o Oriente Médio. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, os envios que antes passavam pelos canais de Ormuz e Suez deverão ser redirecionados para a rota via Cabo da Boa Esperança, ao sul da África. Santin declarou que já está sendo previsto um aumento de custos e maior demora na entrega. Também são analisadas rotas via Turquia e outros portos, como Salalah, em Omã.
Segundo a ABPA, o Oriente Médio é o destino de 25% das exportações do setor de proteína animal. A MBRF, que possui unidades na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes, informou que está priorizando a segurança de seus colaboradores e acionou plano de contingência. A JBS informou que não comentaria.
Milho
O Irã consolidou-se em 2025 como o maior importador do milho brasileiro, totalizando 9 milhões de toneladas. Entretanto, a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) destaca que a maior preocupação diz respeito aos fertilizantes, especialmente a ureia. O diretor executivo da entidade, Glauber Silveira, afirmou que o setor monitora com apreensão, dado que o Brasil depende fortemente da importação desses insumos para manter a produtividade.
Frutas
De acordo com o vice-presidente da Abrafrutas, Waldyr Promicia, empresas de frete marítimo já anunciaram a interrupção do envio de navios para o Golfo Pérsico. O executivo lamentou a situação, afirmando que será necessário suspender operações temporariamente e redirecionar a produção, o que pode sobrecarregar outros mercados. Há preocupação com a disponibilidade de contêineres nos próximos meses, em cenário semelhante ao da pandemia de Covid-19.
Fertilizantes
Em 2025, o Irã exportou 184,7 mil toneladas de ureia ao Brasil, sendo o principal produto vendido pelo país persa ao mercado nacional. O Irã também é o principal fornecedor de gás natural para a produção de fertilizantes em países que exportam nitrogenados ao Brasil, como Catar, Omã e Nigéria, diz a analista da Safras&Mercado, Maísa Romanello. A interrupção desse fluxo pode reduzir a disponibilidade global de matéria-prima.

