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Podcast ‘Tempo Quente’ discute quem ganha com a crise climática

Podcast ‘Tempo Quente’ discute quem ganha com a crise climáticaPodcast Tempo Quente dedica um episódio sobre agronegócio e crise climática. Foto: Agência Brasil

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Por Silvana Mascagna

A jornalista ambiental Giovana Girardi acredita que chegou a hora de o agricultor olhar ao seu redor e perceber que as mudanças climáticas são uma realidade que já reflete no campo. “A quebra de várias safras no ano passado é o exemplo mais concreto que se tem”, afirma a apresentadora de “Tempo Quente”, podcast que em oito episódios investiga as várias faces da crise climática brasileira.

Giovana afirma que, para mudar essa situação, é preciso esquecer a polarização, encarar o problema e ir atrás de soluções.

“Esquece o ambientalismo, esquece a polarização, esquece o Fla x Flu. Não adianta ficar mudando leis loucamente agora, o que passa um sinal ruim pro campo e incentiva mais desmatamento”, afirma ela, que cita pesquisas sobre como, por exemplo, a floresta pode perder a capacidade de absorver carbono em algumas áreas, sobre como o regime de chuvas está alterado devido ao desmatamento e como a fronteira agrícola já está fora do ideal climático para produzir grãos.

“É uma bomba climática que vamos colher daqui a pouco. E isso terá impacto direto na rotina agrícola do País. A produtividade das lavouras é maior quanto mais floresta tem. Isso precisa ser introjetado pelo setor. A discussão não pode ser outra se não essa daqui pra frente”.

No podcast “Tempo Quente”, disponível no site da Rádio Novelo, no YouTube e nos aplicativos de compartilhamento de músicas, há um episódio inteiro dedicado ao agronegócio e sua responsabilidade com relação à crise climática.

A jornalista afirma que, ao tratar desse tema, se deparou com algumas dificuldades. A primeira delas foi compreender a complexidade e heterogeneidade do setor.

“O agronegócio não é uma coisa só. Nem mesmo pode ser dividido somente entre um agro mais arcaico e um agro mais moderno, como a gente escuta bastante. São muitas nuances, então eu acabei decidindo focar a reportagem em um recorte do setor, que foi a representação política do agro, em especial no Congresso, via bancada ruralista”, afirma ela

Giovana explica que a decisão se deveu porque no Congresso há um posicionamento mais uniforme, em que se vota em bloco e se define estratégias comuns. A outra grande dificuldade, diz a jornalista, foi justamente a unificação do discurso como estratégia desse grupo, que dificulta a troca de ideias.

“Há falas padronizadas, que se repetem sempre, como um mantra. E isso torna o diálogo bastante difícil, porque as respostas vão sempre ser as mesmas, num esquema muito defensivo. Essa parte do agro se fecha em copas nesse discurso e não avança”, diz.

Sequestro do discurso

Giovana ficou impressionada como essa organização é eficaz para a bancada ruralista atingir seus objetivos no Congresso. Em suas andanças por Brasília, ela detectou um movimento muito claro de questionar constantemente as leis de proteção ambiental e dados científicos sobre consequências do desmatamento, mudanças climáticas, entre outros assuntos espinhosos para o setor .

“Um lobista com quem eu conversei disse que a estratégia é sempre levantar dúvidas, pôr em xeque o conhecimento já consolidado. E isso é feito até mesmo sobre os indicadores que mostram por A+B que o cenário não está bom”.

Em contrapartida, ela afirma que a grande de mobilização dos ambientalistas não se reflete em poder de articulação no Congresso. De acordo com ela, é preciso lembrar, porém, que essa força dos ruralistas não é de hoje, vem desde do Império, passando pela República do Café com Leite. É o mais poderoso e antigo lobby no Brasil, segundo define no podcast.

“Estamos falando de um setor econômico que é de fato muito importante para o Brasil, mas que sequestrou o discurso ao colocar o crescimento como uma oposição à conservação, ao dizer que é vítima de leis draconianas, ao questionar a ciência climática.”

Giovana acredita que essa simplificação, “às vezes com dados duvidosos”, se mostrou muito efetiva para atender aos objetivos mais imediatistas e arcaicos do setor.

Maçã podre

Para ela, o agronegócio falha em reconhecer que uma parte do setor provoca, sim, danos ambientais. Ela cita estudos, como do MapBiomas, por exemplo, em que cruzamentos de dados de desmatamento com os registros no Cadastro Ambiental Rural (CAR) mostram que apenas 2% dos imóveis rurais respondem por 77% da área desmatada no País.  Ou seja, “o desmatamento no Brasil é um fenômeno feito por poucos em detrimento de muitos”, como disse, recentemente, o engenheiro florestal Tasso Azevedo, do MapBiomas.

“É isso: podem ser poucos os que fazem, mas eles respondem por quase todo o estrago. O que eu acho que esses números dizem muito claramente é que se sabe quem são os responsáveis e seria possível agir com foco neles, mas isso não está sendo feito”, afirma.

Essa venda nos olhos é algo que chamou muita atenção da jornalista: Se são tão poucas as maçãs podres do agronegócio, por que a maioria não prevalece?

“Uma coisa que eu consegui entender é que é uma minoria muito organizada, que elege deputados, que conseguiu se impor. Agora por que a reação não vem de outras formas desses setores mais ilustrados, como exercendo pressões econômicas, por exemplo? Isso me faz questionar se eles também não estão se beneficiando, de algum modo, com o afrouxamento da legislação, com o que o agro ogro está conquistando. Mas esse é um tema que eu gostaria de me aprofundar mais”.