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Era da ‘falência hídrica”‘ expõe riscos ao agro

Era da ‘falência hídrica”‘ expõe riscos ao agroUso da água supera capacidade de reposição da natureza. Foto: Aprosoja-MS

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Por André Garcia

Para além das commodities, o agronegócio brasileiro também cultiva um recurso estratégico para o futuro do planeta: a água. Ao proteger nascentes, margens de rios e lençóis freáticos, o setor se torna chave no enfrentamento de uma era de “falência hídrica”, contribuindo para a segurança da produção, dos ecossistemas e das economias.

Esse é o diagnóstico de um recente relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU), que aponta que o mundo está em uma fase pós-crise, marcada pelo uso persistente da água acima da capacidade de reposição da natureza, com 1,8 bilhão de pessoas vivendo sob condições de seca, com um custo econômico anual estimado em US$ 307 bilhões.

“Este relatório traz uma verdade incômoda: muitas regiões estão vivendo além de seus meios hidrológicos, e muitos sistemas hídricos críticos já estão em estado de falência”, afirma o autor principal, Kaveh Madani, diretor do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH).

Pressão sobre a base produtiva

Segundo o estudo, são 100 milhões de hectares de terras agrícolas degradados pela salinização, 170 milhões de hectares irrigados sob estresse hídrico alto ou muito alto e uma dependência crescente de aquíferos, que já respondem por mais de 40% da água usada na irrigação, estando 70% deles em processo de esgotamento.

Nesse cenário, esperar que a escassez se manifeste apenas como evento extremo é um erro. O produtor mais atento não reage à tragédia quando ela já compromete a produção. Ele se antecipa, ajusta o manejo, protege o solo e a água e incorpora o risco hídrico ao planejamento, justamente para não ser pego de surpresa.

“Milhões de agricultores estão tentando produzir mais alimentos a partir de fontes de água cada vez menores, mais poluídas ou em desaparecimento. Sem transições rápidas para uma agricultura inteligente do ponto de vista hídrico, a falência da água se espalhará rapidamente”, alerta Madani.

Risco hídrico em escala global

Hoje, mais de 50% da produção global de alimentos já ocorre em regiões onde o armazenamento de água é instável ou está em declínio. Esse quadro é agravado pela perda de áreas úmidas, que representa um prejuízo anual de US$ 5,1 trilhões em serviços ecossistêmicos como a regulação hídrica e proteção contra eventos extremos.

Nesse contexto, Madani explica que escassez de água deixa de ser um problema local: quando compromete a agricultura em uma região, seus efeitos se propagam pelos mercados globais, afetam a estabilidade política e ampliam os riscos à segurança alimentar em outras partes do mundo.

“Isso faz com que a emergência hídrica não seja uma série de crises locais isoladas, mas um risco global compartilhado que exige um novo tipo de resposta: gestão de falências, não gestão de crises”, reforça o autor.

Novos limites

Isso significa que setores intensivos em água, como a agricultura e a indústria, precisarão passar por transformações estruturais, com reformas na irrigação, redução de perdas e uso mais criterioso do recurso. Mais do que ampliar a produção, trata-se de reduzir riscos, preservar a base produtiva.

Para o autor, apesar dos alertas, o relatório não é uma declaração de desesperança.

“É um chamado à honestidade, ao realismo e à transformação. Declarar falência não significa desistir, mas recomeçar. Ao reconhecer a realidade da falência hídrica, podemos finalmente fazer as escolhas difíceis que protegerão pessoas, economias e ecossistemas. Quanto mais adiarmos, maior será o déficit”, conclui.