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Excesso de agrotóxicos gera prejuízo no campo, mostra estudo

Excesso de agrotóxicos gera prejuízo no campo, mostra estudoBrasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Foto: Embrapa

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Por André Garcia

O uso de agrotóxicos no Brasil já ultrapassou o ponto de eficiência econômica. Em mais de 80% dos municípios, a aplicação ocorre acima do nível considerado ótimo, o que significa que o aumento dos gastos não se converte mais em ganho proporcional de produtividade e passa a gerar prejuízos, além de impactos ambientais e à saúde.

A conclusão está em artigo dos pesquisadores José Féres, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e Loredany Rodrigues, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que mostram que em municípios intensivos em soja, por exemplo, cada R$ 10 adicionais gastos com agrotóxicos geram em média R$ 3,20 em receita adicional.

“Embora o uso de agrotóxicos seja uma tecnologia de custo relativamente baixo e aumente os rendimentos no curto prazo, seu uso intensivo e contínuo pode afetar os microrganismos do solo, reduzindo a fertilidade das terras agrícolas”, explicam.

Para avaliar se o uso de agrotóxicos ocorre em nível eficiente, eles utilizaram o conceito de receita marginal dos agrotóxicos. Em termos econômicos, o uso é considerado ótimo quando cada unidade adicional de gasto gera retorno equivalente em receita. Quando isso não ocorre, o insumo passa a ser sobreutilizado.

Sobreuso se espalha pelo território

O Brasil é atualmente o maior consumidor mundial de agrotóxicos, tanto em volume total quanto em intensidade de aplicação por hectare. Entre 2003 e 2023, o consumo anual saltou de cerca de 180 mil para 800 mil toneladas, enquanto a taxa média de aplicação atingiu 10,9 kg por hectare em 2021, nível superior ao de países como Estados Unidos e China.

A intensificação ocorreu de forma generalizada, com maior concentração nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde estão localizadas as principais áreas produtoras de soja, milho e cana-de-açúcar, culturas que respondem por aproximadamente 76% do consumo nacional de agrotóxicos.

A análise territorial dos dados dos Censos Agropecuários de 2006 e 2017 indica que o sobreuso de agrotóxicos se tornou um padrão nas regiões Sul e Centro-Oeste, onde cerca de 90% dos municípios operam acima do nível economicamente eficiente, refletindo a intensificação produtiva dessas áreas.

Mais insumo não significa mais produtividade

O problema do uso excessivo de agrotóxicos não se limita aos impactos ambientais e à saúde. Com o tempo, o próprio insumo perde eficiência. Pragas mais resistentes e solos degradados reduzem o retorno de cada nova aplicação.

Além disso, a tolerância das sementes ao herbicida acelera esse processo, estimulando o uso contínuo e aprofundando um ciclo de dependência química e perda de eficiência.

“Reduzir as ineficiências na aplicação de agrotóxicos pode se configurar em uma situação de ‘duplo ganho’, com redução das externalidades negativas e com aumento da rentabilidade das atividades agrícolas.”

Alternativas para reduzir o sobreuso

Diante disso, o manejo integrado é apontado como principal alternativa para o controle de pragas. Esse conjunto de práticas combina diferentes métodos de controle, como o biológico, o cultural, o físico e o químico, para reduzir os danos. A estratégia é baseada no monitoramento constante, priorizando ações preventivas e de controle.

“Essa técnica não atinge organismos não alvo – que beneficiam o ambiente agrícola, como os predadores naturais e os organismos benéficos do solo – e não causa danos à saúde e ao meio ambiente, dado que não gera resíduos e não apresenta riscos toxicológicos”, acrescentam.

Crédito rural pode induzir mudança

Outra estratégia importante está relacionada ao crédito rural. Condicionar linhas de crédito subsidiado à adoção de práticas que reduzam o controle químico poderia incentivar um uso mais racional dos insumos e alinhar produtividade com sustentabilidade.

Condicionar o crédito subsidiado a práticas sustentáveis que reduzam externalidades, tais como a redução do controle químico de pragas, seria um mecanismo eficaz para a redução do sobreuso de agrotóxicos. Ressalte-se ainda a importância das agências de extensão rural para a disseminação das práticas de manejo integrado de pragas” concluem.

 

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