Por André Garcia
A exigência por soja “livre de desmatamento” ganhou força no mercado internacional, mas está longe de representar um conceito único. Na prática, diferentes tradings adotam critérios próprios para definir o que é ou não considerado desmatamento, criando múltiplas versões de soja “sustentável”.
Segundo o Dossiê Agronegócio, Ciência e Tecnologia, elaborado pelas pesquisadoras Ângela Camana e Marília David, das universidades federais do Pará (UFPA) e do Rio Grande do Sul (UFRGS), a falta de um padrão único traz mais complexidade para produtores e exportadores, e dificulta a leitura sobre o que, de fato, é controlado.
“As métricas, critérios e formas de monitoramento de problemas ambientais não são definições e tecnologias neutras. Elas não apenas medem a conformidade ambiental, mas ajudam a defini-la de forma conveniente para o setor”, explica a pesquisadora Ângela Camana, autora principal do artigo.
Falta de padrão
Parte das tradings limita o conceito ao desmatamento ilegal, ou seja, aquele que desrespeita o Código Florestal. Outras incluem também o desmatamento legal, estabelecendo datas de corte para qualquer supressão de vegetação, mesmo quando autorizada por órgãos ambientais.
Há casos que utilizam 2008 como referência, em linha com o Código Florestal e a Moratória da Soja, enquanto outros trabalham com marcos mais recentes, como 2015, adotado pela ADM, ou 2020, utilizado por empresas como Amaggi, COFCO e LDC. A Bunge, por sua vez, adota 2016 como parâmetro.
“Há diferentes recortes temporais para considerar quando o desmatamento na cadeia passa a ser inaceitável. Isso significa que uma mesma soja pode ser enquadrada como ‘livre de desmatamento’ por uma trader, mas não por outra” completa.
Diferenças vão além da data de corte
Enquanto o programa da ADM e a Política de Fornecimento Sustentável de Soja da COFCO se aplicam exclusivamente à soja, a certificação da Amaggi inclui também milho, em diferentes sistemas de produção. No caso da Cargill, o escopo varia. O programa 3S abrange soja, milho e canola, enquanto o Smart Soy é voltado apenas à soja.
Já a certificação da Bunge, o programa da LDC e o padrão internacional da COFCO se aplicam de forma mais ampla, alcançando todas as commodities fornecidas por essas empresas.
Recorte Geográfico
Também não há consenso sobre onde estão os principais riscos. Algumas políticas focam em biomas específicos, como Amazônia e Cerrado, enquanto outras ampliam ou restringem esse recorte. Essa seleção de “áreas prioritárias” acaba concentrando o monitoramento em determinadas regiões e deixando outras fora do radar.
A COFCO, por exemplo, concentra suas exigências na Amazônia, no Cerrado e no Gran Chaco, vinculando essas regiões ao compromisso de produção sem desmatamento. Já o programa 3S, da Cargill, é apresentado como global, mas tem aplicação prática concentrada em estados como Mato Grosso, Pará e Paraná.
A Bunge, por sua vez, classifica seu programa como global, com foco principal no fornecimento agrícola brasileiro. Este cenário é descrito pelas pesquisadoras como uma “cacofonia de sustentabilidade”, marcado por definições divergentes e critérios que nem sempre são comparáveis.
Mercado opera com regras fragmentadas
Os resultados mostram como a ausência de um parâmetro único leva o mercado a operar com regras fragmentadas, aumentando a burocracia e os custos para o produtor. Esse cenário se aproxima do que ocorre com o enfraquecimento da Moratória da Soja, que está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF).
Sem um pacto coletivo reconhecido pelo mercado, compradores mais exigentes passam a buscar soluções próprias para reduzir riscos reputacionais. Na prática, a cadeia passa a operar com exigências distintas, prazos diferentes e metodologias próprias de verificação entre empresas.
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