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Guerra faz crescer custo de produção agrícola, diz CNA

Guerra faz crescer custo de produção agrícola, diz CNA

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Um dos maiores impactos que a guerra entre Rússia e Ucrânia tem sobre a agropecuária brasileira, de acordo com Bruno Lucchi, diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), é em relação ao aumento dos custos de produção. A importação de fertilizantes, conforme temos falado aqui no Gigante 163, é ponto crítico da situação, uma vez que a Rússia é o segundo maior produtor-exportador de nitrogênio e está entre os três maiores, no caso do fósforo e potássio.

“Cerca de 20% das importações feitas pelo Brasil de insumos do grupo NPK (nitrogenados, fosfatados e os de potássio) tem origem no país russo”, aponta Lucchi. “Então o impacto é significativo caso haja um desabastecimento ou um aumento de preço desses principais produtos, o que já está ocorrendo.”

O diretor técnico explica ainda que os produtores estavam deixando para negociar a compra de fertilizantes a partir do segundo trimestre, em função dos altos custos que já se arrastavam desde o ano passado e a tendência de queda que alguns insumos, principalmente a ureia, vinha apresentando. “Agora, com esse problema maior, o produtor está revendo sua estratégia, para saber se vale a pena ou não realizar as compras nesse momento”. Uma orientação importante que os produtores devem ter em mente, nesse caso, é buscar fornecedores confiáveis, que vão garantir a entrega de tais produtos no final do ano.

Além disso, um outro aspecto que preocupa o setor nacional é a questão energética. A Rússia é um dos maiores produtores de gás natural e petróleo. Já no primeiro dia após a entrada da Rússia em território ucraniano, o petróleo atingiu US$ 105 o barril — “e isso tem um impacto direto no preço dos combustíveis daqui”, aponta o diretor da CNA. No Brasil, os maiores agropecuários estão localizados no interior do país, apresentando grandes distâncias dos portos. Assim, o agro acaba sendo muito afetado pelo aumento dos preços do frete e do escoamento da produção, “seja na compra de insumos ou transporte dos produtos para centros urbanos”, complementa Lucchi.

“E o petróleo é ainda o percursor de vários defensivos químicos que utilizamos ou está contido nas embalagens, podendo afetar também com o aumento do preço de tais produtos”, diz Bruno Lucchi.

A cotação do dólar não escapou dos reflexos do conflito entre os países europeus. Até a última quarta-feira, 23/02, o dólar comercial estava em queda, alcançando um valor de US$ 5,004. No entanto, ainda nos primeiros dias de guerra ele voltou a subir, fechando em US$ 5,16 no dia 01/03, segundo dados da Morningstar (empresa que fornece dados de investimentos à Google). “Como grande parte dos insumos da agropecuária brasileira é dolarizada, o impacto pode ser significativo por aqui”, declara Lucchi.

O aumento de custo das commodities (trigo, milho e soja) afeta também no custo das cadeias pecuárias (avicultura, suinocultura e bovinocultura), uma vez que dependem de ração oriunda principalmente do milho. “Isso se agrava, se não tivermos uma melhoria da segunda safra ainda esse ano”, alerta Lucchi. “Tivemos problemas climáticos muito fortes, então esperamos que nesta safra possamos recuperar boa parte da produção de milho, reequilibrando a oferta e demanda”.

“Mas ainda é muito cedo para a gente realmente ter uma avaliação mais completa”, finaliza Lucchi. “Precisamos saber se há realmente uma expectativa da guerra durar por mais tempo e saber como isso impactará o setor. A Europa e os EUA começam os plantios entre abril e maio, então nós podemos observar e antecipar alguns dos problemas que poderemos ter na agropecuária brasileira”.