“Cada crise dos combustíveis fósseis nos lembra quão vulnerável é a agricultura convencional: os agricultores dependentes de fertilizantes sintéticos ficam expostos a choques de preços que não conseguem controlar.” A frase de Gabrielle Taus, diretora da Commonland, organização internacional que trabalha com recuperação de paisagens degradadas, resume o dilema do agronegócio em 2026.
Com o Oriente Médio em chamas, o custo dos fertilizantes nitrogenados — dependentes do gás natural e de rotas comerciais instáveis — tornou-se o principal gargalo da agricultura brasileira, que hoje importa entre 85% e 87% dos fertilizantes utilizados nas lavouras.
Essa vulnerabilidade é a grande chance de o País olhar para dentro e acelerar uma transição que antes parecia distante.
Enquanto o preço do adubo sintético dispara, a ciência prova que é possível produzir mais com menos química. Um relatório de 2025 da European Alliance for Regenerative Agriculture (EARA) revelou que fazendas regenerativas entregam uma produtividade quase idêntica às tradicionais (apenas 2% de diferença), mas com uma saúde financeira muito superior. Nessas propriedades, o uso de fertilizante nitrogenado caiu 61% e o de pesticidas recuou 75%.
No Brasil, essa eficiência atende pelo nome de bioinsumos. Segundo a CropLife Brasil, o setor cresceu 13% na safra 2024/2025, um ritmo quatro vezes superior à média mundial, cobrindo uma área de 156 milhões de hectares.
O recorde regulatório: 2025 como marco
O avanço técnico veio acompanhado de um fôlego institucional inédito. O Brasil encerrou 2025 com o recorde de 162 novos registros de bioinsumos — entre produtos microbiológicos, extratos vegetais e reguladores de crescimento. Com isso, o país ultrapassa a marca de 1.000 bioinsumos registrados, consolidando-se como o maior polo de formulação biológica do planeta.
Este salto foi impulsionado pela Lei 15.070/2024, o Marco Regulatório dos Bioinsumos, que entrou em vigor no final de 2024. A lei trouxe a segurança jurídica que investidores e grandes corporações demandavam, estabelecendo diretrizes claras para pesquisa, produção e comercialização.
O futuro do setor
Apesar do avanço, a revolução técnica agora enfrenta seu desafio político: a regulamentação da lei. Recentemente, um grupo de mais de 30 entidades — representando desde pequenos produtores familiares até gigantes da indústria — uniu-se para apresentar uma proposta técnica que subsidie o governo na implementação prática do Marco Regulatório.
O movimento é estratégico. Enquanto a regulamentação “agrada e incomoda” diferentes setores, o consenso é que o tema é de soberania nacional. Para Mariane Vidal, do Ministério da Agricultura, os bioinsumos são o pilar que permite ao Brasil uma produção “mais limpa, competitiva e alinhada à agenda climática”.
Ao unir a biologia do solo à modernização das leis, o Brasil deixa de olhar para o Oriente Médio com temor e passa a olhar para os seus próprios laboratórios com esperança.
A independência do campo brasileiro, ao que tudo indica, não virá de um navio carregado de adubo, mas de uma ciência enraizada no território.
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