Resumo
- O Plano Safra 2026/2027 destina R$ 525 bilhões à agricultura empresarial, com juros menores, mas sem previsibilidade para o seguro rural.
- Para especialistas, a proteção mais sólida do produtor contra o clima não está no volume de crédito, e sim em tornar a produção mais resiliente.
- A recuperação de pastagem degradada aparece como caminho concreto, financiada pela linha mais barata do plano (RenovAgro, a 8%–8,5% ao ano).
Por André Garcia
Com um aporte de R$ 525 bilhões para a agricultura empresarial e juros menores em quase todas as linhas, o Plano Safra 2026/2027 reforçou o crédito ao produtor brasileiro. Mas, sem previsibilidade para o seguro rural, o anúncio desta terça-feira, 30/6, ainda não responde a uma questão: em ano de El Niño, como proteger um setor já endividado de um clima cada vez mais hostil?
Para especialistas em clima e agricultura, a resposta não está no volume de crédito, e sim em como ele é aplicado: a proteção mais sólida do produtor seria tornar o próprio sistema produtivo menos vulnerável ao clima — algo que o seguro, sozinho, não faz.
“As cadeias da agropecuária precisam ampliar os investimentos em descarbonização e em práticas de baixa emissão para ficarem menos voláteis aos efeitos da falta ou do excesso de chuvas”, afirma Paulo Camuri, gerente de Ciência do Clima e Inteligência de Dados e Territorial do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).
Aposta na transição
A alternativa é direcionar o crédito para a transição dos sistemas produtivos, investimentos de longo prazo que se beneficiariam de juros mais baixos que os de mercado para sair do papel. O primeiro passo seria o Plano Safra ampliar a fatia dedicada ao Plano ABC+, o eixo de baixo carbono do crédito rural, historicamente em torno de 5%.
“Dar escala à recuperação de pastagens e áreas florestais degradadas, zerar o desmatamento e utilizar técnicas de agricultura regenerativa são alguns exemplos do que pode ser feito, migrando paulatinamente a maior parte do recurso do Safra para o Plano ABC+”, aponta Camuri.
Recuperar o pasto, reduzir o risco
A recuperação de pastagem degradada é o exemplo mais concreto dessa lógica. A estratégia tende a render em três frentes ao mesmo tempo: mais produtividade por hectare, mais renda e menor pressão por abertura de novas áreas. Em vez de avançar sobre vegetação nativa, o produtor intensifica o que já está aberto.
Essa também é uma das frentes financiadas pelo Plano Safra. O RenovAgro, braço de baixo carbono do crédito rural, banca a recuperação de áreas produtivas e tem o crédito mais barato do pacote: as linhas de recuperação e conversão de pastagens ficaram entre 8% e 8,5% ao ano, ante 12,5% do custeio empresarial.
“A aceleração da jornada para a sustentabilidade é o único e verdadeiro mecanismo de proteção de longo prazo ao produtor rural, porque colabora para limitar o aquecimento climático e garantir os serviços ecossistêmicos essenciais à atividade agropecuária”, conclui o especialista.
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