Por André Garcia
Embora o país produza mais de 1,2 bilhão de toneladas de alimentos e bioenergia por safra, a base tecnológica que sustenta essa produção depende, em grande medida, de insumos fabricados fora do território nacional. A conta não fecha. Hoje, entre 85% e 87% dos fertilizantes utilizados no país são importados
Os dados são do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP). Em estudo publicado em feveriero, os autores mostraram que em 2024, o Brasil importou 44,8 milhões de toneladas de fertilizantes, com um gasto anual estimado em cerca de US$ 25 bilhões. Isso representa mais de 20% do custo de produção das principais culturas, como soja, milho e algodão.
“A agricultura que alimenta o mundo opera, paradoxalmente, sobre uma base de dependências que a tornam vulnerável. A produção global de fertilizantes — insumo sem o qual nenhuma das grandes culturas de grãos, oleaginosas ou fibras alcançaria rendimentos viáveis — concentra-se em poucos países”, dizem os pesquisadores.
De acordo com eles, essa relação cria uma “fratura silenciosa” na agricultura brasileira, que opera sobre uma matriz de insumos não controlável. Assim, o setor agrícola fica sensível a oscilações cambiais, crises logísticas e tensões geopolíticas, como os conflitos mais recentes entre Israel e Irã ou entre a Rússia e a Ucrânia.
“Os choques geopolíticos e energéticos de 2022 demonstraram, com uma alta de 129% nos preços internacionais (Insper Agro Global, 2025), a velocidade com que perturbações em cadeias de suprimento se convertem em pressão sobre margens agrícolas e, em última instância, sobre a segurança alimentar”, diz trecho do estudo.
Dependência também nos defensivos agrícolas
O Brasil também figura entre os maiores importadores mundiais de defensivos agrícolas. Em 2025, foram importadas 863 mil toneladas de agroquímicos, com aumento de 33% em relação ao ano anterior, sendo 70% provenientes da China e 11% da Índia. As compras chegaram a US$ 4,67 bilhões.
Os números reforçam a concentração geográfica. Entre janeiro e outubro de 2025, por exemplo, a China exportou cerca de 9,77 milhões de toneladas de fertilizantes ao Brasil, enquanto a Rússia respondeu por 9,72 milhões de toneladas, tornando-se os dois principais fornecedores do mercado brasileiro.
Outro problema apontado pelos autores é que o setor de proteção de cultivos é marcado pelo domínio de poucas empresas. Segundo o estudo, quatro grandes corporações controlam cerca de 70% do mercado mundial de defensivos agrícolas, o que limita a diversificação de fornecedores.
Modelo tropical amplia limitações
No caso brasileiro, essa dinâmica é amplificada pelas características do próprio sistema produtivo. Diferentemente de países de clima temperado, onde a agricultura ocorre em um único ciclo anual, o Brasil opera frequentemente com duas ou até três safras na mesma área ao longo do ano.
Esse regime de produção intensifica a demanda por fertilizantes e defensivos, ampliando a exposição a oscilações nos mercados internacionais de insumos.
“O país encontra-se na interseção de duas vulnerabilidades convergentes: depende de insumos cuja oferta é geograficamente concentrada — e opera um sistema agrícola cujo regime de múltiplas safras anuais amplifica tanto o volume demandado quanto a exposição a interrupções logísticas e oscilações de preço”, pontuam.
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