O Brasil tem tudo para liderar a nova economia verde: matriz energética majoritariamente renovável, biomas estratégicos e capacidade produtiva reconhecida mundialmente. Mas, enquanto o País hesita em alinhar sua produção agrícola às exigências ambientais do século 21, a China dá passos largos rumo a um novo paradigma de desenvolvimento e assume a dianteira global.
É o que apontam o cientista político Marcos Woortmann, o consultor internacional Gustavo Cortês de Lima e a pesquisadora Dulce Maria Pereira, em artigo publicado pelo Estadão nesta sexta-feira, 18/7.
“O Brasil se destaca globalmente pela sua conexão com a sustentabilidade, visível em sua matriz energética, com mais de 80% de fontes renováveis, e na vasta extensão de suas áreas florestais, como a Amazônia, com seu robusto arcabouço de Reserva Legal. No entanto, o país enfrenta desafios significativos que podem comprometer essa posição”, dizem.
De acordo com eles, em 2024, a China reduziu suas emissões de carbono, investiu mais de 350 GW em fontes solar e eólica e ampliou áreas irrigadas e de reflorestamento, com meta de restaurar 10 milhões de hectares em 2025. De 2010 a 2023, a cobertura florestal saltou de 23,5% para 30,7%. Essa transição une segurança alimentar e compromisso climático, consolida a uma “Civilização Ecológica” como modelo estratégico.
Enquanto isso, o agronegócio brasileiro, maior exportador mundial de alimentos, ainda opera, em muitos casos, sob um modelo insustentável, baseado em desmatamento, degradação de pastagens e uso intensivo de agrotóxicos. Essa lógica impõe riscos econômicos concretos: o novo regulamento europeu contra o desmatamento (EUDR) exige rastreabilidade completa de produtos como carne, soja e madeira.
Nova economia exige rastreabilidade, regeneração e segurança jurídica
Como temos mostrado no Gigante 163, o não cumprimento desses critérios, pode gerar multas e barreiras comerciais, afetando o acesso a mercados premium.
“A não adequação às exigências ambientais também pode significar a perda de oportunidades estratégicas de exportação, enquanto a adoção de práticas sustentáveis pode impulsionar o crescimento das exportações em até 20%. A escolha é estratégica, não ideológica”, reforçam os especialistas.
Mais do que uma agenda ambiental, a transição é uma estratégia de negócios. Estudo citado pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) aponta que exportações brasileiras podem crescer até 20% com a adoção de modelos regenerativos. Um bom exemplo é a recuperação de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas, que pode gerar R$ 19,6 bilhões por ano e até 3,3 milhões de empregos em três décadas.
Retrocesso ambiental ameaça acordos internacionais e imagem do país
O obstáculo, segundo o IDS, está dentro de casa: o Projeto de Lei 2.159/2021, aprovado na Câmara dos Deputados, flexibiliza o licenciamento ambiental e transfere ao empreendedor a classificação de risco. Especialistas alertam que isso compromete a fiscalização, fere princípios constitucionais e gera insegurança jurídica.
O projeto é contestado por autoridades ambientais e pode prejudicar o Brasil em acordos como o UE-Mercosul, cujo avanço depende do cumprimento de compromissos climáticos.
“A eficácia do licenciamento ambiental é crucial para prevenir riscos à saúde pública e à biodiversidade. Ignorar as externalidades ambientais, especialmente as mudanças climáticas, cria passivos que comprometem a sustentabilidade das atividades produtivas e a imagem do Brasil.”
O custo da inação é alto: entre 2013 e 2022, eventos climáticos extremos causaram prejuízos de R$ 287 bilhões ao agro brasileiro. Estimativas da OCDE indicam que o país perde 1,3% do PIB anualmente por desastres naturais. Para o IDS, insistir em um modelo extrativista e legislativamente frágil marginaliza o Brasil nas cadeias globais de valor e desestimula investimentos estrangeiros.
“A rejeição definitiva deste projeto exige coragem política, visão estratégica e compromisso com o bem comum, garantindo que o Brasil avance na direção de um modelo de desenvolvimento sustentável e juridicamente sólido.”
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