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Cotas da China forçam ajuste gradual na pecuária brasileira

Cotas da China forçam ajuste gradual na pecuária brasileiraChina importou cerca de 1,7 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil. Foto: Imac

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Por André Garcia

A adoção de cotas e sobretaxas pela China para a importação de carne bovina não deve provocar um choque imediato no mercado, mas muda de forma estrutural as expectativas do setor a partir de 2026, forçando maior cautela na produção e ajustes no ritmo de crescimento da pecuária brasileira.

A medida entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026 e estabelece cotas crescentes nos três primeiros anos. No primeiro, o limite é de cerca de 1,1 milhão de toneladas, com tarifa de 12% para os volumes dentro da cota e sobretaxa de 55% para os excedentes, o que eleva a tarifa total para 67% fora do limite.

Mesmo diante disso, relatórios de mercado, como o do Santander, e análises da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes indicam que a demanda chinesa por carne bovina deverá permanecer firme.

China concentra quase metade das exportações brasileiras

Em 2025, a China importou cerca de 1,7 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil, 48,3% das exportações nacionais. Em Mato Grosso, principal exportador brasileiro, 54,8% de toda a carne bovina exportada pelo estado teve como destino o mercado chinês ao longo de 2025.

“As exportações brasileiras para a China são fruto de uma relação comercial construída ao longo de anos. A carne bovina brasileira, reconhecida por sua qualidade, exerce papel complementar no abastecimento do mercado chinês e contribui para a estabilidade da oferta ao consumidor”, destacou a Abiec em nota.

Mudança estrutural do fluxo de mercado

O ponto central não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, diante da limitação de absorção de outros destinos.

“A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro, da Biond Agro.

China permanece como principal destino

Os embarques destinados à China envolvem produtos com maior valor agregado e perfil distinto do consumo doméstico, associados à geração de emprego e renda no setor. O país segue como o principal destino da carne bovina brasileira e um mercado central para o funcionamento da pecuária nacional.

Aproximadamente 70% da carne bovina produzida no Brasil é destinada ao mercado interno, enquanto cerca de 30% é exportada, o que reforça o caráter complementar das vendas externas para o equilíbrio da cadeia.

Demanda chinesa segue firme apesar das cotas

Segundo análise do Santander, o rebanho bovino chinês vem diminuindo de forma estrutural, em função do aumento do abate de fêmeas, o que limita a produção local. Em paralelo, o consumo de carne bovina segue em trajetória de crescimento, ampliando a necessidade de importações para equilibrar o mercado.

“Mesmo com tarifas, o diferencial de preços entre o mercado doméstico e os fornecedores externos tende a sustentar a demanda por carne importada”, destacam os analistas.

De acordo com o Ministério do Comércio da China (MOFCOM), a cota global prevista para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas, das quais cerca de 41% caberão ao Brasil, o equivalente a aproximadamente 1,1 milhão de toneladas. Para o Santander, a política não altera o cenário-base de demanda chinesa ao longo de 2026.

Preço competitivo favorece a carne brasileira

Um dos principais diferenciais do Brasil está no custo da arroba, estimado em cerca de US$ 4 por quilo. O valor é inferior ao observado nos Estados Unidos e na Austrália, em torno de US$ 5/kg, além de ficar abaixo do preço médio de importação da China, de US$ 5,5/kg, e do valor praticado no atacado chinês, próximo de US$ 9/kg.

Esse cenário beneficia exportadores mais competitivos, como Brasil, Argentina e Austrália.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele atua como demanda marginal em momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

“O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a Biond Agro.

 

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