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MT está no centro da expansão do crime organizado na Amazônia

MT está no centro da expansão do crime organizado na AmazôniaFacções já operam em uma lógica de "estado paralelo". Foto: Polícia Federal

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O crime organizado consolidou sua presença na Amazônia Legal, alcançando 344 dos 772 municípios da região — um salto de 32% em relação a 2024. O cenário de controle territorial e financeiro foi detalhado na última edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A pesquisa revela que facções como o Comando Vermelho (CV) já operam em uma lógica de “estado paralelo”, enviando “informativos” via WhatsApp para garimpeiros em Alta Floresta (MT). Desde outubro, tornou-se “obrigatório” o cadastro e o pagamento de taxas mensais para quem opera balsas e escarientes. As mensagens obtidas pela reportagem da Agência Brasil são explícitas: “todos os trabalhos ilegais dentro do estado de Mato Grosso são prioridade e voltados à organização”.

A facção estabeleceu dias fixos para o pagamento (entre 1º e 8 de cada mês) e aplica uma tabela de valores conforme o maquinário. O descumprimento gera punições fatais.

“Lembrando que aqueles que não estiverem fechando com nós será liberado o mesmo ser roubado e também ser brecado de trabalhar. Se por acaso insistir será queimado sua máquina e poderá perder até mesmo a própria vida por estar batendo de frente”, diz o texto criminoso.

Para Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP, o fenômeno é uma simbiose entre narcotráfico e degradação ambiental.

“O estudo mostra que essas facções, majoritariamente ligadas ao narcotráfico, veem na Amazônia e nos crimes ambientais novas formas de ganhar dinheiro e lavar dinheiro”. Segundo ela, a solução passa obrigatoriamente pela segurança: “Estamos em um espaço de justiça climática e transição energética, mas nenhuma dessas soluções pode ser bem pensada no Brasil sem cidadania e segurança nos territórios”.

O mapa das facções e a rota do tráfico

O estudo identifica 17 facções ativas na região. O CV domina as rotas fluviais (como o rio Solimões) e escoa produtos por portos como Manaus e Belém, estando presente em 286 cidades. Já o PCC foca na internacionalização via rotas aéreas clandestinas e oceânicas (pelo Suriname), influenciando 90 municípios. Além dos grupos nacionais, organizações estrangeiras como a venezuelana Tren de Aragua e dissidências colombianas também operam no território.

A violência física acompanha a expansão desses grupos. Em 2024, a Amazônia registrou 8.047 mortes violentas, com uma taxa de 27,3 por 100 mil habitantes — 31% acima da média nacional.

Entre as cidades mais violentas com até 20 mil habitantes, um dos destaques negativos é Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso. O número de assassinatos passou de 12 em 2022 para 42 em 2024, fenômeno relacionado ao avanço do CV. A cidade possui posição estratégica para o tráfico internacional de drogas pela proximidade com a Bolívia. E também abriga parte da Terra Indígena Sararé, que registrou crescimento exponencial do garimpo.

“A situação em Sararé é muito impressionante. O Comando Vermelho chegou e passou a controlar toda a cadeia da extração de minério, principal do ouro. Não é mais só o garimpeiro, que já era um problema. É o garimpeiro que paga taxa ao Comando Vermelho para explorar o território. A lógica de controle territorial armado que vemos no Rio de Janeiro vai acontecendo nos territórios amazônicos”, aponta Samira.

Entre as cidades mais violentas com mais de 100 mil habitantes está Sorriso, também no Mato Grosso, que registrou 72 homicídios violentos em 2024. Ela é conhecida como a “capital nacional do agronegócio”, por liderar a produção mundial de soja. Por dois anos consecutivos, esteve entre as cidades com maiores taxas de estupros de vulnerável no país.

Os números alertam que o problema da segurança pública tem se intensificado no Mato Grosso. O estado, que possui uma faixa de fronteira extensa com a Bolívia, uma das maiores produtoras mundiais de cocaína, se tornou estratégico para o narcotráfico. Desde 2023, há acirramento das disputas entre o Comando Vermelho e a Tropa do Castelar, dissidência do CV aliada ao PCC.

A vulnerabilidade feminina também é alarmante. Com 586 mulheres assassinadas em 2024, a região apresenta uma taxa 21,8% superior à média do Brasil. Mato Grosso lidera a letalidade feminina (5,3 por 100 mil).