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Calor extremo pode derrubar em até 90% a capacidade de trabalho no campo

Calor extremo pode derrubar em até 90% a capacidade de trabalho no campoCenário exige mobilização pública e privada. Foto: Secom-MT

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Por André Garcia

O Fórum Econômico Mundial colocou o clima no topo do ranking de riscos globais para os próximos anos. No Brasil, o cenário será desafiador especialmente para o agronegócio, que, para além das perdas em lavouras e rebanhos, deverá lidar com os impactos do calor extremo sobre a saúde dos trabalhadores rurais.

Segundo estudo publicado na revista Scientific Reports, as altas temperaturas podem reduzir em até 90% a capacidade de trabalho no setor até o fim do século no País. O prejuízo associado ao estresse térmico no trabalho pode chegar a 228 milhões a 353 milhões de dólares por dia.

O estudo envolveu pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro).

“As mudanças climáticas podem representar uma crise iminente para a capacidade produtiva do Brasil, com sérias repercussões sociais e econômicas a longo prazo. A relação entre o desconforto térmico e as perdas econômicas é cada vez mais evidente e exige ação imediata”, dizem os autores.

Centro-Oeste concentra perdas milionárias

A análise do estresse térmico considera o índice WBGT, que combina temperatura, umidade e radiação solar para medir o risco enfrentado pelos trabalhadores. Valores acima de 34°C já ultrapassam o limite crítico de segurança ocupacional, tornando o esforço prolongado progressivamente inviável em partes do País.

É o caso das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que concentram atividades ao ar livre, como agricultura, construção civil, serviços e trabalho informal. Só no Centro-Oeste, as perdas projetadas variam de US$ 29,2 milhões a US$ 40,4 milhões por dia. Para o Produto Interno Bruto (PIB), a queda seria de 2% até 2100.

“Deste ponto de vista, a implementação de medidas de mitigação, como a redução das emissões de gases de efeito estufa e o investimento em infraestrutura adaptada, poderia limitar as perdas financeiras e proteger os setores mais sensíveis”, destacam os autores, que citam também alternativas como os sistemas agroflorestais (SAFs).

Normas trabalhistas entram no debate climático

A exposição ocupacional ao calor extremo é tratada no Brasil pela NR-15, que define limites de tolerância para atividades insalubres. Contudo, especialistas apontam que o texto já se mostra insuficiente diante das recorrentes ondas de calor, que, conforme o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), afetam 38 milhões de trabalhadores.

Diante disso, o Governo Federal vem discutindo a atualização das regras de forma específica para cada região climática, período do dia e o cargo exercido pelo trabalhador. O tema foi debatido entre julho e outubro de 2025 e deve continuar em pauta este ano, quando é esperada a aprovação de uma nova versão.

“A crise climática é, hoje, uma questão trabalhista. Ela destrói empregos, altera jornadas, afeta a saúde e aprofunda desigualdades”, ressaltou o secretário-executivo do MTE, Chico Macena, ao tratar do assunto na Reunião Extraordinária de Ministros do Trabalho e Assuntos Sociais da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Trabalhador rural na linha de frente do calor

De acordo com estudo da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançado durante a 30ª Conferência das Partes (COP30), trabalhadores agrícolas têm 35 vezes mais probabilidade de morrer por exposição ocupacional ao calor do que trabalhadores de todos os demais setores combinados.

“Como dependem diretamente de seu trabalho diário de produção para garantir seu sustento, [os trabalhadores] muitas vezes ignoram os sinais naturais de alerta de seus corpos em resposta ao calor excessivo, intensificando o esforço físico e se expondo a riscos ainda maiores”, destaca a pesquisa da Fundacentro.

Entidades como Observatório Copernicus e o instituto americano Berkeley Earth apontam que 2026 será um dos cinco anos mais quentes já registrados.  Por isso, apesar da existência de legislação brasileira, ainda é preciso promover intervenções mais eficientes e implementar políticas públicas inovadoras de proteção.

“É essencial conectar políticas públicas com iniciativas privadas para a adoção de medidas de proteção ao trabalhador, como a criação de espaços frescos, a garantia de pausas regulares, o ajuste da jornada de trabalho e o incentivo à hidratação adequada”, concluem os autores.

 

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