HomeEcologiaTecnologia

Dia das Florestas: Diversificar o manejo é a chave para a preservação

Dia das Florestas: Diversificar o manejo é a chave para a preservaçãoManejo florestal passa por transformação. Foto: Agência Brasil

Com desmatamento recorde, Cerrado preocupa mais que Amazônia
MT começa exportar soja com redução de pegada de carbono
MT já cumpriu 76% das metas para se tornar área livre de aftosa, sem vacinação

O desmatamento ilegal e a emissão de gases do efeito estufa comprometem a preservação e impulsionam uma crise climática sem precedentes na Amazônia, mas e se a solução para um manejo florestal mais eficiente estiver na valorização da própria natureza? Essa é a principal aposta de pesquisadores brasileiros, debatida nesta semana durante uma programação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em Brasília, para celebrar o Dia Internacional das Florestas, comemorado neste 20 de março.

Nos últimos 30 anos, o manejo florestal no Brasil passou por uma transformação silenciosa, mas profunda. A diretora do Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Gracialda Costa, menciona que o uso de ferramentas como GPS, mapeamentos digitais e sistemas de monitoramento, permitiram que o uso da floresta deixasse de ser desordenado para se tornar planejado, principalmente na exploração da madeira, que possui grande importância social e econômica nos municípios amazônicos.

Muito além da madeira

Até então, a madeira em tora representa aproximadamente 50% do valor da produção da extração vegetal na região Amazônica. No estado do Pará, por exemplo, a Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira (AIMEX) anunciaram que o estado exportou mais de US$ 21,4 milhões de madeira apenas em janeiro de 2026. Para Gracialda, o dado reforça que o uso da madeira, isoladamente, não é o principal problema das florestas, mas sim a falta de uso viável e organizado de outros recursos.

“Hoje, é possível saber exatamente onde está cada árvore, estimar biomassa, acompanhar o crescimento da floresta e prever impactos ao longo do tempo. Esse conjunto de tecnologias trouxe um ganho importante: operar com visão de longo prazo”, diz.

Edson Vidal, do Departamento de Ciências Florestais da ESALQ/USP, explica que a pesquisa científica a longo prazo possui papel decisivo nessa mudança. A principal prova são os estudos feitos com base em 20 a 30 anos de acompanhamento.

O resultado é: em áreas manejadas corretamente, o carbono retirado começa a ser recomposto em menos de uma década, mantendo a diversidade de espécies estável ao longo do tempo. Porém, em áreas exploradas de forma predatória, esse processo praticamente não acontece.

“É necessário controlar o crescimento da área de exploração madeireira. Mantendo essa atividade em áreas controladas, variando as espécies utilizadas e compensando esses impactos, é possível ter resultados melhores a longo prazo”, pontua.

Além disso, há evidências de que a biomassa, a matéria viva na floresta, pode se recompor de forma prolongada em ciclos de 30 anos, chegando a níveis próximos aos de áreas não exploradas. Logo, o problema não é o uso da floresta, mas como esse uso é feito.

Fazendo o ‘dever de casa’

“Não dá pra você criar uma política publica em cima de dados desatualizados”.

Gracialda frisa que não dá para depender de poucas espécies ou de um único modelo de exploração no manejo sustentável. No entanto, é necessário ter o máximo de informações sobre espécies e seus usos para essas propostas de manejo sejam pensadas de forma viável, eficiente e justa.

“As pessoas do campo possuíam esse comprometimento de catalogar as espécies existentes, o que se perdeu um pouco no tempo. Então se você cria uma estrutura em cima de algo desatualizado, pode acabar perdendo algo ainda mais importante pela falta de informação”, declara.

No caso da madeira, ela explica que as árvores mais valorizadas comercialmente são também as mais sensíveis à exploração. Se o manejo permanece concentrado nelas, há risco de redução populacional e até de desaparecimento local.

Hoje, grande parte dos inventários florestais ainda apresenta erros significativos na identificação das árvores. Prova disso é o relato da pesquisadora de que cerca de metade das espécies amazônicas não são corretamente identificadas em nível mais detalhado.

Desta forma, o principal ‘dever de casa’ é usar a parceria entre órgãos federais, estaduais e comunitários para revisar espécies já mapeadas e fazer sua identificação correta nos casos incompletos.  Na prática, isso reduz o risco de proteger de forma rígida espécies que não estão ameaçadas, assim como afrouxar a fiscalização em espécies que precisam de mais proteção.

Oportunidades (e desafios) históricos

Do ponto de vista técnico e ambiental, a diversificação de manejo inclui o uso de diferentes espécies de madeira; valorização de produtos florestais não madeireiros; integração da conservação da biodiversidade com produção, assim como estratégias personalizadas para cada tipo de espécie. Para Edson, esta é uma oportunidade rara e muito especial para o Brasil.

“Diferente de outros países que já esgotaram seus recursos florestais, ainda há tempo de construir um modelo equilibrado na Amazônia, um modelo que a grande sociedade consiga entender e valorizar no dia a dia”, observa.

Para Gracialda, o único caminho para alcançar esse ‘engajamento’ social é trazendo os povos da floresta para o centro dos debates e decisões.

“É obrigatório incluir as comunidades locais nesse processo. São elas que vivem na floresta e podem transformar o manejo em fonte de renda sem abrir mão da conservação, muitas já fazem isso há séculos. Agora é reunir as melhores práticas e ampliar a escala de execução”, declara.

Fonte: Tereza Coelho/Pará Terra Boa