HomeEconomia

Guerra no Oriente Médio reforça urgência por bioinsumos no Brasil

Guerra no Oriente Médio reforça urgência por bioinsumos no BrasilSetor cresceu 13% na safra 2024/2025, mas precisa crescer mais. Foto: Emater/GO

Seguda safra de milho leva agronegócio a mais um recorde
População ocupada no agro no 1º tri atinge nível mais alto desde 2016
Tecnologia brasileira promete baratear análise de solos coesos

“Cada crise dos combustíveis fósseis nos lembra quão vulnerável é a agricultura convencional: os agricultores dependentes de fertilizantes sintéticos ficam expostos a choques de preços que não conseguem controlar.” A frase de Gabrielle Taus, diretora da Commonland, organização internacional que trabalha com recuperação de paisagens degradadas, resume o dilema do agronegócio em 2026.

Com o Oriente Médio em chamas, o custo dos fertilizantes nitrogenados — dependentes do gás natural e de rotas comerciais instáveis — tornou-se o principal gargalo da agricultura brasileira, que hoje importa entre 85% e 87% dos fertilizantes utilizados nas lavouras.

Essa vulnerabilidade é a grande chance de o País olhar para dentro e acelerar uma transição que antes parecia distante.

Enquanto o preço do adubo sintético dispara, a ciência prova que é possível produzir mais com menos química. Um relatório de 2025 da European Alliance for Regenerative Agriculture (EARA) revelou que fazendas regenerativas entregam uma produtividade quase idêntica às tradicionais (apenas 2% de diferença), mas com uma saúde financeira muito superior. Nessas propriedades, o uso de fertilizante nitrogenado caiu 61% e o de pesticidas recuou 75%.

No Brasil, essa eficiência atende pelo nome de bioinsumos. Segundo a CropLife Brasil, o setor cresceu 13% na safra 2024/2025, um ritmo quatro vezes superior à média mundial, cobrindo uma área de 156 milhões de hectares.

O recorde regulatório: 2025 como marco

O avanço técnico veio acompanhado de um fôlego institucional inédito. O Brasil encerrou 2025 com o recorde de 162 novos registros de bioinsumos — entre produtos microbiológicos, extratos vegetais e reguladores de crescimento. Com isso, o país ultrapassa a marca de 1.000 bioinsumos registrados, consolidando-se como o maior polo de formulação biológica do planeta.

Este salto foi impulsionado pela Lei 15.070/2024, o Marco Regulatório dos Bioinsumos, que entrou em vigor no final de 2024. A lei trouxe a segurança jurídica que investidores e grandes corporações demandavam, estabelecendo diretrizes claras para pesquisa, produção e comercialização.

O futuro do setor

Apesar do avanço, a revolução técnica agora enfrenta seu desafio político: a regulamentação da lei. Recentemente, um grupo de mais de 30 entidades — representando desde pequenos produtores familiares até gigantes da indústria — uniu-se para apresentar uma proposta técnica que subsidie o governo na implementação prática do Marco Regulatório.

O movimento é estratégico. Enquanto a regulamentação “agrada e incomoda” diferentes setores, o consenso é que o tema é de soberania nacional. Para Mariane Vidal, do Ministério da Agricultura, os bioinsumos são o pilar que permite ao Brasil uma produção “mais limpa, competitiva e alinhada à agenda climática”.

Ao unir a biologia do solo à modernização das leis, o Brasil deixa de olhar para o Oriente Médio com temor e passa a olhar para os seus próprios laboratórios com esperança.

A independência do campo brasileiro, ao que tudo indica, não virá de um navio carregado de adubo, mas de uma ciência enraizada no território.

LEIA MAIS:

Veja como bioinsumos podem livrar agro de fertilizantes importados

Adubação estratégica: como enfrentar a alta dos fertilizantes

Rússia suspende exportações de fertilizantes e pressiona o agro

Guerra no Irã: Agro quer reduzir tributos de fertilizantes e biodiesel

CNA alerta: alta de fertilizantes e diesel aperta margens no campo

Refém da geopolítica, agro brasileiro importa quase 90% de fertilizantes

Corrida por fertilizantes pode encarecer insumos, alerta Aprosoja