Por André Garcia
Com 31.589 hectares cultivados e mais de 120 mil toneladas de soja certificada pela Round Table on Responsible Soy (RTRS), a Fazenda Paiaguás, em Mato Grosso, aponta caminhos para a agricultura regenerativa ganhar escala no País, com ganhos de estabilidade e previsibilidade no campo.
Em um cenário em que o conceito ainda busca padronização e comprovação prática no campo, a propriedade se tornou campo de testes para gerar indicadores e aprimorar o protocolo que orienta a produção responsável da soja.
“A Fazenda Paiaguás traz evidência prática de adoção em larga escala, dentro de um sistema produtivo complexo, que inclui rotação com algodão. Isso permite gerar dados consistentes para calibrar indicadores e baselines mais realistas por região e por sistema produtivo”, destaca o gerente de Sustentabilidade da SLC Agrícola, Tiago Agne.
Integrada à operação da SLC Agrícola desde agosto de 2000, a fazenda passou por um processo contínuo de expansão e profissionalização. Hoje, soma 28.038 hectares de área própria e mais de 63 mil hectares de área plantada total, com rotação entre soja, milho e algodão, além de infraestrutura completa e projetos sociais no entorno.
Manejo já consolidado
As práticas centrais para a agricultura regenerativa já fazem parte da rotina operacional. O plantio sem intervenção mecânica no solo é adotado em aproximadamente 100% das áreas da companhia. A rotação entre soja, milho e algodão reduz a pressão de pragas e doenças e melhora a ciclagem de nutrientes.
O processo inclui a manutenção de palhada, presente em parcela relevante das áreas, que contribui para conservação de umidade e adaptação ao estresse hídrico. Além disso, inoculantes são utilizados em 100% das fazendas, enquanto os bioinsumos já representam cerca de 16,7% do total de defensivos empregados.
Com isso, o principal efeito observado é a maior estabilidade entre safras. A combinação de plantio direto, rotação de culturas e cobertura permanente do solo tende a reduzir a variabilidade produtiva, aumentando a previsibilidade em um cenário cada vez mais exposto a eventos climáticos extremos.
“Quando combinamos plantio sem revolvimento do solo, rotação de culturas e cobertura permanente, reduzimos a variabilidade de resultados entre safras. Isso aumenta a previsibilidade do negócio e reduz a exposição a riscos climáticos”, explica o gerente da Fazenda Paiaguás, Rafael Bellé.
Medir ainda é o principal desafio
Mais do que introduzir novas técnicas, a iniciativa da Round Table on Responsible Soy tenta responder a uma lacuna do setor: como medir, de forma padronizada, os efeitos da agricultura regenerativa, que reúne práticas voltadas à melhoria contínua do sistema produtivo, especialmente em solo, água, biodiversidade e resiliência climática.
A estratégia começa a considerar o peso das condições de mercado nas decisões de manejo, mas sua adoção ainda depende de fatores como custo, risco e expectativa de retorno.
“A avaliação da agricultura regenerativa não pode ser dissociada das condições econômicas e comerciais que orientam o produtor, sendo fundamental considerar essas variáveis na construção e aplicação de indicadores”, diz Helen Estima Lazzari, consultora externa da RTRS e coordenadora do projeto piloto.
LEIA MAIS:
COP30: Nestlé firma acordo para acelerar agricultura regenerativa
Coalizão quer acelerar agricultura regenerativa no Brasil
ADM passa os 2 milhões de hectares com agricultura regenerativa
Safra de soja regenerativa supera 149 mil toneladas
Setor da soja discute agricultura regenerativa para reduzir custos

