Os termômetros e os oceanos já começam a desenhar o cenário climático dos próximos meses, e o veredito dos cientistas exige atenção: o fenômeno El Niño está de volta, promete ser rigoroso e terá fôlego de longo prazo. De acordo com os dados mais recentes da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA), a probabilidade de o fenômeno se consolidar entre maio e julho já atinge 82%, escalando para impressionantes 91% no trimestre seguinte, entre junho e agosto.
Mais do que uma certeza estatística, a intensidade do evento preocupa. A agência norte-americana aponta uma chance de 2 em 3 de o planeta enfrentar um El Niño de categoria “forte” ou “muito forte”. Na prática, isso significa que as águas do Oceano Pacífico Equatorial podem registrar temperaturas 2°C acima da média histórica no período crítico entre novembro e janeiro.
Especialistas alertam, contudo, para uma detalhe importante: um fenômeno mais forte não se traduz, obrigatoriamente, em desastres inéditos ou mais drásticos, mas sim em uma certeza muito maior de que os seus impactos tradicionais e severos de fato se concretizem.
Historicamente, o El Niño redesenha o regime de chuvas no Brasil, atuando como um condutor de extremos que divide o mapa do País:
- Calor e irregularidade no Centro-Oeste: No coração produtivo do País, o El Niño costuma provocar um aumento significativo nas temperaturas médias e uma forte irregularidade na distribuição das chuvas. O início e o fim do período chuvoso tornam-se incertos, o que encurta a janela ideal de plantio e expõe o solo a taxas de evaporação mais altas, secando as lavouras mais rapidamente.
- Sul em alerta máximo: A região é tradicionalmente a mais afetada. O aquecimento do Pacífico potencializa o transporte de umidade, alimentando sistemas de baixa pressão que resultam em tempestades frequentes e risco elevado de inundações. Para o trimestre de maio a julho, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) já confirma a tendência, prevendo volumes de chuva significativamente acima da média para o Rio Grande do Sul.
- Seca no Norte e Nordeste: No outro extremo do País, o fenômeno atua bloqueando as precipitações. A previsão para essas regiões é de períodos prolongados de estiagem e chuvas abaixo da média, acendendo o sinal de alerta para a segurança hídrica, para os incêndios florestais e para o manejo agrícola nessas áreas.
Agro em alerta
Desta vez, o El Niño também promete testar a resiliência global pela sua durabilidade. Os modelos de previsão da NOAA indicam 96% de probabilidade de que o fenômeno persista ativamente pelo menos até o início de 2027.
Essa longevidade inédita coloca setores estratégicos da economia nacional sob forte pressão. O agronegócio, em especial, já trabalha com margens de cautela: as projeções indicam riscos que vão desde queda na produtividade da soja no Centro-Oeste até impactos tardios na colheita de café nas temporadas de 2027 e 2028.
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