HomeProdutividade

Clima e geopolítica são os maiores temores do agro

Clima e geopolítica são os maiores temores do agroRiscos climáticos são vistos como altos. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Como o Super El Niño e a guerra podem travar o agronegócio
Brasil tem 37 novos mercados externos abertos em 8 meses
Bioconeomia pode elevar PIB da Amazônia Legal para R$ 40 bi

Resumo

  • Estudo da EY Brasil aponta que o clima e a geopolítica são as maiores preocupações do agronegócio, com o setor se sentindo pouco preparado para mitigar os impactos.
  • Cerca de 79% das empresas veem o risco climático como alto ou muito alto, e especialistas alertam que o zoneamento agrícola atual não considera o novo mapa de riscos extremos.
  • Lideranças indicam que o investimento em pesquisa para resiliência no campo está aquém da velocidade necessária, além de faltar um sistema robusto de seguro rural.
  • A alta dependência da China e a concentração de produtos de beneficiamento primário deixam o agro exposto a novas barreiras comerciais globais.
  • Especialistas defendem a diversificação de mercados de exportação e maior proatividade diplomática para o Brasil se antecipar a sanções internacionais.

As mudanças climáticas e os riscos geopolíticos estão no centro das preocupações do agronegócio, e o próprio setor entende que está pouco preparado para mitigar seus eventuais impactos. Um estudo da EY Brasil, realizado com 52 companhias de todos os elos da cadeia e divulgado pelo Valor Econômico, mostra que o clima continua sendo a maior inquietação do mercado. O principal novo temor, contudo, é a geopolítica, que sequer constava na análise anterior feita em 2022.

Especialistas e lideranças ouvidas pelo Valor avaliam que falta investimento em pesquisa para adaptação aos eventos climáticos, fortalecimento no sistema de seguro rural e um foco maior nas políticas de conservação das florestas.

Nas questões geopolíticas, o diagnóstico aponta que o Brasil precisa se antecipar a eventuais sanções, ter mais proatividade na construção de suas defesas e nas medidas de reciprocidade. A diversificação de mercados na exportação, com o objetivo de reduzir sobretudo a dependência da China, também surge como outra necessidade urgente.

Agro despreparado para a crise climática

Os dados da EY mostram que 79% das empresas veem os riscos climáticos como altos ou muito altos, e o tema aparece como aquele em que o setor se sente menos preparado para responder. Para a consultoria, há uma lacuna relevante entre a consciência do problema e a capacidade de adaptação prática.

“O Brasil possui bom avanço tecnológico no uso de agricultura de precisão e adoção de genética. No entanto, temos um zoneamento agrícola que não considera o novo mapa de riscos climáticos”, afirma Otavio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY, ao Valor.

Lopes observa que a cada quatro safras de soja no Rio Grande do Sul, uma é perdida, enquanto no Paraná há uma perda para cada seis safras.

“São números de muita expressão, talvez o problema não esteja ligado à adoção ou não das melhores práticas agrícolas, mas sim à reavaliação do zoneamento sob a ótica desses riscos e dos ciclos climáticos”, estima Lopes.

Marcelo Morandi, chefe de Relações Internacionais da Embrapa, afirma que o fator clima não é novo e o setor vem se preparando nos últimos anos, mas ainda existem carências bastante grandes que deixam o produtor exposto, como a falta de cobertura de seguro rural.

“Temos trabalhado ao longo dos anos em sistemas de produção mais resilientes, que tenham resistência maior ao estresse hídrico e outras intempéries, com cobertura do solo e outras técnicas. Mas por mais que a gente tenha feito esse exercício ao longo dos anos, ainda estamos aprendendo com os eventos extremos”, reconhece o especialista da Embrapa.

Para Morandi, o investimento em pesquisa está muito aquém da velocidade necessária.

“Em 50 anos de agricultura tropical, a gente promoveu um grande sistema de cultivares e agora precisamos dar um novo salto em função das mudanças climáticas, mas não temos mais 50 anos para isso”, acrescenta Morandi.

Grande parte dos agricultores tem consciência das questões relativas ao clima, diz o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Plöger. Entretanto, ele alega que a intensidade e as consequências dos eventos chegam a tirar os produtores mais endividados da atividade, por isso o setor necessita de um fundo de emergência climática, além de avançar no seguro rural.

Posturas contraditórias

Em relação ao desmatamento — um dos motores das mudanças climáticas —, Plöger destaca a necessidade de cumprimento legal em referência ao Código Florestal.

“Temos uma legislação e temos que cumprir. O Brasil hoje preserva dois terços de suas áreas e o pagamento por serviços ambientais ainda não saiu”, afirma o presidente da Abag.

Para o pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Paulo Barreto, o agronegócio demonstra posturas contraditórias quando o assunto é o clima.

“Parte do setor entende que precisa conservar as florestas e outra parte ainda nega o problema, mesmo sentindo os impactos em seca e chuvas, que se refletem em custos de produção”, afirma Barreto.

Segundo o pesquisador do Imazon, alguns produtores “trabalham para reduzir as políticas ambientais que mitigariam os efeitos climáticos e ao mesmo tempo buscam recursos para lidar com as perdas causadas pelo clima”. Em sua visão, a política para o agro deveria incluir obrigatoriamente a restauração florestal e a conservação das florestas existentes.

O gargalo da geopolítica

Na questão geopolítica, o baixo preparo do agro é resultado de um conjunto de fatores, analisa Otávio Lopes, da EY. Entre eles, o especialista cita “a concentração excessiva de mercados” para venda da produção e a alta concentração de produtos com beneficiamento primário.

Além disso, afirma, o agro ainda depende “muito de um modal rodoviário com rotas de escoamento estrangulado”, somado a um cenário onde “temos déficit de armazenamento, o que reduz a capacidade de arbitragem temporal”.

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, avalia que há uma tendência geopolítica global de aplicação de barreiras e tarifas ao comércio internacional que veio para ficar, e que a única saída viável é a busca por novos compradores.

“O que o agronegócio tem que fazer é diversificar. Para os produtos que não entram mais nos EUA, ou que têm ameaça de redução [de entrada] na Europa ou na China, tem que buscar outros mercados, não tem saída”, diz Barbosa.

Num ambiente em que as disputas comerciais avançam de forma agressiva, o Brasil deve ser mais enfático na adoção de mecanismos de defesa, na avaliação de Ingo Plöger, da Abag.

“É preciso saber jogar o jogo. É necessário maior firmeza nas políticas de reciprocidade nos casos de sanções injustificadas”, aponta Plöger.

Finalizando a análise, Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global e coordenador da área de comércio, geopolítica e segurança alimentar, defende que o país precisa se posicionar de forma estratégica antes que as crises se instalem.

“O Brasil precisa ser mais proativo em negociar parcerias globais, tanto do ponto de vista diplomático quanto corporativo. Seria melhor antever as crises, para não ter que ficar correndo atrás das consequências”, conclui Gilio.