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Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial em 40 anos

Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial em 40 anosPesquisador alerta para o fim do Pantanal em 50 anos. Foto: Famasul

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Resumo

  • Um estudo inédito liderado por pesquisadores da Unesp revelou que o Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nas últimas quatro décadas (entre 1985 e 2023).
  • Os cientistas apontam que a combinação entre as mudanças climáticas globais e a ação humana — como a expansão de pastagens, agricultura e construção de barragens — secou as áreas que antes eram alagadas.
  • O trabalho é o maior já feito sobre o tema no bioma. Foram cruzados dados de chuvas com 36 mapas gerados por satélite, utilizando quatro índices matemáticos diferentes para garantir a precisão da descoberta.
  • Os índices de precipitação mostraram que as chuvas na região estão cada vez mais irregulares e insuficientes para repor o estoque de água e a umidade do solo, aumentando a frequência de secas severas.
  • A falta de água ameaça mais de 4.600 espécies de seres vivos (entre plantas e animais) e destrói o habitat de predadores como a onça-pintada, além de inviabilizar a pesca e o turismo.
  • Pesquisadores alertam que, sem um plano urgente de manejo sustentável da água e da terra que inclua as comunidades locais, o Pantanal corre o risco de desaparecer nos próximos 40 ou 50 anos.

Considerado a maior planície inundável do planeta com seus 150 mil km², distribuídos entre Brasil, Bolívia e Paraguai, o Pantanal perdeu cerca de 80% de suas águas superficiais nas últimas quatro décadas. De acordo o estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o atual regime de chuvas da região já não consegue repor o ciclo natural de cheias.

A pesquisa aponta que a variabilidade hídrica negativa é fruto direto do impacto das mudanças climáticas associado à intensa conversão do solo para atividades humanas.

O engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos autores do projeto, destaca que este é o mapeamento mais abrangente já realizado no Pantanal brasileiro, cobrindo o período de 1985 a 2023.

“O Pantanal está num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”, conclui Justino.

A matemática por trás das imagens de satélite

Para chegar a esses dados, os cientistas analisaram imagens de satélite divididas em recortes de cinco em cinco anos. A equipe aplicou quatro fórmulas matemáticas conhecidas como índices espectrais — entre eles o NDWI (Índice de Água por Diferença Normalizada) —, que medem os valores de reflectância da luz na superfície terrestre para diferenciar, com exatidão, onde há água, solo seco ou vegetação.

Ao todo, foram gerados 36 mapas de alta precisão. O processamento exigiu um ano de trabalho de filtragem manual para eliminar interferências como sombras de nuvens.

Complementando o estudo, os pesquisadores aplicaram outros três índices voltados à análise das chuvas, utilizando dados globais do projeto CHIRPS, da Universidade da Califórnia. O resultado cruzado confirmou que, além do sumiço da água visível, há um declínio progressivo da umidade do solo e um aumento drástico na frequência de secas extremas.

Ameaça à biodiversidade e colapso socioeconômico

A retração da água afeta diretamente o equilíbrio ecológico de um bioma que abriga mais de 4.600 espécies catalogadas de plantas e animais. Conforme explica Justino, a quebra do ciclo hídrico gera um efeito cascata na cadeia alimentar.

De acordo com o estudo, além das mudanças climáticas, que têm levado a uma diminuição dos níveis de precipitação e tornado as chuvas insuficientes para repor o ciclo hidrológico do Pantanal, existem outros fatores que intensificam a redução da área ocupada por corpos d’água, como as mudanças no uso do solo, com a construção de barragens ou a expansão da agricultura e da pecuária.

“Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem”, relata o pesquisador.

Como consequência, a redução dos rios e lagoas diminui a oferta de peixes, apresentando um impacto direto em predadores do topo da cadeia, como a onça-pintada, que necessita da água para caçar e vê seu habitat encolher.

Além do desastre ambiental, o estudo acende um sinal vermelho para as populações tradicionais, como ribeirinhos e comunidades indígenas.

Sem água, a pesca e o ecoturismo entram em colapso, extinguindo as principais fontes de renda locais e forçando os moradores a migrarem ou aceitarem subempregos que muitas vezes estimulam o próprio desmatamento.

A  urgência de um manejo sustentável

Justino ressalta a importância de haver, no Pantanal, um manejo sustentável do uso da água e da terra. No curto prazo, deve-se realizar um monitoramento contínuo para identificar as áreas mais afetadas e também a causa do problema.

A agricultura, por exemplo, afeta o território ao reduzi-lo a plantações e causa ainda a contaminação das águas devido ao uso de defensivos agrícolas, tornando-se imprescindível uma mudança. Os ribeirinhos, sem fonte de renda, acabam ingressando em serviços prejudiciais ao bioma, como o desmatamento.

“É preciso realizar uma gestão que diminua esses impactos e inclua essas comunidades na conservação do Pantanal, uma vez que, como moradores, eles são os principais afetados”.

Fonte: Unesp