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Bancos preveem crédito rural mais seletivo e cauteloso na safra 2026/27

Bancos preveem crédito rural mais seletivo e cauteloso na safra 2026/27Clima concentra o maior risco da temporada. Foto: Agência Brasil

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Resumo

  • A safra 2026/27 exigirá cautela redobrada de bancos e produtores devido a margens mais estreitas, alto endividamento e a previsão de um El Niño severo.
  • Empréstimos atrelados ao dólar vão crescer 57% no Sicredi, pois oferecem juros mais baratos diante da taxa Selic atual de 14,25%.
  • O El Niño deve voltar forte no fim de 2026, trazendo o risco de secas e veranicos para o Centro-Oeste (especialmente Mato Grosso), Norte e Matopiba, enquanto favorece chuvas no Sul.
  • A previsão ainda é de safra cheia e oferta global confortável para a soja, embora o ritmo de expansão da área plantada esteja desacelerando.
  • O maior risco para o milho está na safrinha, que pode ter o plantio prejudicado caso o clima instável atrase o ciclo da soja.
  • A recente queda no preço da ureia traz alívio para os produtores de milho, mas os adubos fosfatados e o enxofre continuam caros e preocupam o setor.

Por André Garcia

O agronegócio brasileiro deve enfrentar a safra 2026/27 com margens apertadas, endividamento elevado e um crédito mais seletivo, enquanto a formação de um El Niño possivelmente forte adiciona incerteza à produção e aos preços das principais commodities. A leitura é compartilhada por duas das maiores instituições de crédito do setor.

Segundo publicações do Globo Rural desta quinta-feira, 2/6, tanto o Itaú BBA quanto o Sicredi trabalham com o mesmo diagnóstico: a rentabilidade mais estreita e o peso das dívidas tornaram produtores e bancos mais criteriosos na hora de negociar financiamento.

Para o diretor de agronegócios do Itaú BBA, Pedro Fernandes, a “seletividade” se tornou uma das palavras que melhor definem o momento. Com a margem apertada, boa parte da renda do produtor tem sido consumida pelo pagamento de dívidas, o que dificulta o financiamento da próxima safra.

No Sicredi, o discurso é parecido.

“A cautela está dos dois lados. Do produtor e das instituições financeiras, que colocam outras análises e variáveis. Estamos pautados em crescer, mas crescer com qualidade”, afirmou Vitor Moraes, superintendente de Agronegócios do Sicredi, em entrevista coletiva.

Crescer, mas com critério

Apesar do ambiente mais duro, nenhuma das instituições recua nos planos de expansão. O Itaú BBA projeta ampliar cerca de 10% sua carteira de crédito voltada ao agro, número que desconsidera os efeitos cambiais.

O Sicredi, por sua vez, prevê emprestar R$ 72,1 bilhões em 2026/27 (alta de 4,4% sobre os R$ 69 bilhões do ciclo anterior), em 340 mil operações, ante 320 mil contratos na safra passada. Do total, R$ 27,6 bilhões devem ir para o custeio, R$ 15,4 bilhões para investimentos e R$ 2 bilhões para a comercialização, além de R$ 18 bilhões via Cédulas de Produto Rural (CPR), alta de 6,5%.

O maior avanço proporcional está nas linhas atreladas ao dólar, que devem chegar a R$ 9,1 bilhões, salto de 57%. Na leitura da cooperativa, o produto oferece custo financeiro menor, com taxa em torno de 70% da Selic (hoje em 14,25% ao ano), e é direcionado sobretudo a quem tem parte da receita em moeda americana, casando prazos com o fluxo de caixa.

Em maio, a carteira total de crédito agropecuário do Sicredi somava R$ 121 bilhões; a inadimplência subiu, mas segue abaixo da média de mercado, segundo os executivos.

Clima é o principal fator de risco

Nas duas apresentações, o clima concentra o maior risco da temporada. Para o Itaú BBA, um El Niño intenso poderia provocar perdas em regiões produtoras relevantes, com destaque para Mato Grosso, deixando o equilíbrio global entre oferta e demanda de grãos mais sensível e abrindo espaço para reação nos preços.

Ainda assim, o cenário-base do banco segue sendo o de uma safra robusta. Na soja, a expectativa é de nova produção elevada e oferta global confortável, ainda que a expansão da área plantada esteja perdendo força.

No milho, o foco recai sobre a segunda safra, vulnerável a atrasos no plantio da soja provocados por irregularidades climáticas.

No algodão, a projeção é de queda da produção global com exportações brasileiras em alta; na cana, de maior moagem no Centro-Sul, a depender do clima na colheita. Já no mercado de fertilizantes, a recente queda da ureia trouxe alívio aos produtores de milho, mas os preços de fosfatados e de enxofre continuam preocupando.

Saiba mais

O impacto do El-Niño – Institutos de meteorologia projetam um El Niño de intensidade forte a muito forte para o segundo semestre de 2026, com pico entre o fim do ano e o início de 2027. No Brasil, o fenômeno tende a favorecer as chuvas no Sul e a trazer irregularidade e veranicos ao Centro-Oeste, Norte e Matopiba, o que eleva o risco para estados como Mato Grosso. Na safra 2023/24, sob El Niño, a soja mato-grossense chegou a registrar quebra próxima de 15%.

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